Arnaldo Bertone: Alma e coração imensos e intensos

 
Dias atrás me avisaram de uma homenagem para o meu camarada Arnaldo. Se alguém merece ser homenageado é o Arnaldão. Militante de corpo e alma na política, quis tirar a ditadura no tapa. Percebeu que era fria, tinha bom senso, e entrou no Partidão. Com a mesma intensidade, torcia pelo time da vila mais famosa do mundo, onde o Rei exerceu sua magestado como em nenhum outro lugar.
Arnaldão merece mais homenagens. Vamos a elas.

ARNALDÃO
(12/1/1949 – 3/11/2008)
 
​Domingos Pellegrini Jr
 
​Conheci Arnaldo Bertone no Tiro de Guerra, em 1968, quando eu era universitário e ele ainda fazia o colegial, mas acompanhava o irmão Antenor nas reuniões políticas e culturais no Grupo Escolar Hugo Simas, onde à noite funcionavam os cursos de Direito e Letras. O pessoal de esquerda se reunia na cantina onde, para diferenciar, passsamos a chamar Arnaldo de Bertoninho e Antenor de Bertonão. Mas, com o tempo, virou Arnaldão, pela altura e pelo jeitão.
​Quando Edilson Leal dirigiu uma peça teatral no primeiro ou segundo Festival Universitário, Arnaldo ia aos ensaios acompanhando o irmão, e começou a ensaiar “de estepe” no lugar de um ator que faltava muito. No dia da estréia, foi lá para ver a peça, até que Edilson chamou:
– Vai botar a roupa, Arnaldo, que já vamos começar!
Arnaldo botou a roupa e fez seu papel, o que seria uma sina: passou a vida “vestindo a camisa” e fazendo seu papel em todos os órgãos públicos em que trabalhou, com honestidade e criatividade. Um dia me explicou:
– Se você ouvir apenas o que diz o pessoal, vai contra a instituição, da qual o próprio pessoal depende. Se ouvir só a instituição, vai contra o pessoal, de quem a instituição depende. Então sempre procuro achar um caminho bom para os dois lados.
Voltando ao famoso ano de 1968: quando Arnaldo descobriu que o mesmo Pellegrini que fazia o Tiro de Guerra também fazia política estudantil e militava em partido clandestino contra a ditadura, me cochichou:
– Me bota nessa, camarada.
Falei para não falar mais “camarada”, coisa de comunista russo; falasse “companheiro”. Décadas depois, quando o encontrei e a palavra já estava desgastada pela politicagem e picaretagem esquerdista, me falou olhando nos olhos:
– Lembra quando a gente se chamava de companheiro com orgulho? Pois é, agora dá vergonha!
Voltando novamente a 68, uma noite combinamos de ir para o Tiro no fusca de meu pai, à paisana, levando as fardas para vestir depois de fazer panfletagem de madrugada. Fomos enfiando panfletos em caixas de correio, debaixo de portões, e chegamos a entrar pelo jardim de uma casa de madeira, ali perto do antigo Colossinho, para enfiar o papel debaixo da porta. Enfiamos o papel e a porta se abriu, surgiu Álvaro Girotto, nosso colega de Tiro de Guerra, só de cuecas com nosso incriminador panfleto na mão. Como Girotto era “caxias”, passamos dias esperando ser chamados pelo sargento, mas nada aconteceu.
​Décadas depois, contei a Arnaldo o que me contaria um dia o sargento Ageo: que Girotto não tinha nos dedado mas os sargentos sabiam de nossas atividades clandestinas. Como, porém, éramos atiradores exemplares no Tiro de Guerra, tinham se negado a nos prender conforme pedia o SNI, o temido Serviço Nacional de Informações. Arnaldo balançou a cabeça, umedecendo os olhos, e soltou:
– É, aprendi uma coisa nesses anos todos de política: gente boa e gente ruim tem na esquerda, na direita e no centro…
Exilado, voltou ao Brasil antes da anistia, para se enfiar de novo em partido clandestino. Ficou de motorista enquanto outros entravam para assaltar agência bancária em São Paulo. Na fuga, como Arnaldo era ruim de volante, acabou preso e baleado na barriga, quase morreu. Mas lembraria rindo:
– Fiquei preso só com gente boa! Não quero repetir a experiência, mas aprendi muita coisa!
Quem conheceu Arnaldão conheceu uma das risadas mais gostosas que gente pode produzir, saída de um coração amoroso, um espírito generoso e uma alma alegre. Quando soube de sua morte súbita, de enfarte, lembrei imediatamente de sua risada e pensei:
– Só podia ter sido do coração.

TWITTER: @jogodopoderpr

FACEBOOK: JP Jogo do Poder