Situação dos médicos no Brasil. Vale a leitura.

Duas matérias interessantes veiculadas neste final de semana merecem destaque. Tratam de retratar a situação da assistência médica no Brasil e apontando para a falta de profissionais, fato que se constata onde quer que sevá.
Vamos aos textos.

Gazeta do Povo

Brasil precisa formar o dobro de médicos para cumprir meta

Os Ministérios da Saúde e da Educação trabalham com a ideia de atingir uma taxa de 2,5 médicos para cada mil habitantes no fim desta década

07/04/2012 | 19:53 | O GLOBO

Brasil precisará mais do que dobrar o número de médicos formados anualmente para cumprir a meta do governo de elevação do número desses profissionais até 2020. Os Ministérios da Saúde e da Educação trabalham com a ideia de atingir uma taxa de 2,5 médicos para cada mil habitantes no fim desta década, embora o martelo ainda não tenha sido batido. Em 2011, o índice era de 1,95, segundo o Conselho Federal de Medicina.
O Ministério da Saúde projeta que serão formados 14.660 médicos este ano. Considerando o crescimento populacional, o Brasil precisaria ter 520 mil profissionais em exercício em 2020 para atingir a marca de 2,5 médicos por mil habitantes. Em 2011, eram 371 mil. Isso exigiria diplomar cerca de 228 mil profissionais nesta década, já que é necessário também substituir quem se aposenta, abandona a profissão ou morre.
Um dos obstáculos é que a abertura de uma faculdade só dá resultado seis anos depois, quando começam as formaturas. Projeções do Ministério da Saúde indicam que, em 2014, deverão se formar 16.240 médicos no país. Para atingir a meta, seria necessário formar mais de 30 mil médicos nos últimos anos desta década. Ou seja, mais do que o dobro do previsto para 2012.ço se destina a discutirmos

 

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Blog do Dr. Marco Sobreira
LEILÃO DE MÉDICOS

Anúncio de emprego: salário de até R$ 16,8 mil. Cargo: médico. Local: municípios do interior de Minas Gerais. Muito atraente para a turma de branco, não? Mas as prefeituras vêm encontrando dificuldades para manter o quadro de profissionais da área mesmo garantindo vencimentos tão elevados. O problema não é encontrar quem queira ocupar o cargo, mas manter os médicos na cidade.

Um dos prefeitos obrigados a conviver com o dilema é Domingos Rivelli Teixeira Nogueira (PTB), da cidade de Brás Pires, município de aproximadamente 5 mil habitantes, na Zona da Mata, a 332 quilômetros de Belo Horizonte. A cidade paga R$ 16.800 mensais para cada um dos dois médicos que a prefeitura tenta manter. “Hoje o quadro está completo. Mas a última contratação foi feita na semana passada. Além disso, o outro profissional que já estava no cargo avisou que sai em junho”, lamenta o prefeito.

Conforme Rivelli, o médico que deixou a cidade na semana passada ficou apenas cinco meses no emprego. “Pode ligar para todos os municípios vizinhos: Catas Altas da Noruega, Lamim, Senador Firmino, Itaverava. Todas têm o mesmo problema”, garante o prefeito. Rivelli afirma que, geralmente, os médicos vão para cidades maiores. “Esse rodízio provoca transtornos. Quando o médico começa a se acostumar com o prontuário do paciente, decide ir embora”.

O prefeito, que pode tentar a reeleição, garante que a luta que trava para manter os médicos é para fornecer tratamento de saúde com mais qualidade e sem deslocamentos para outros municípios. Ele admite, porém, que a falta dos profissionais pode prejudicar nova disputa pelo cargo, em outubro: “Se faltar médico é certo que teremos problemas na campanha”.

A vizinha Piranga, a 169 quilômetros de Belo Horizonte, mantém sete cargos de médico. Os salários são menores: R$ 8.900. Segundo a secretária municipal de Saúde, Ariadne de Fátima Cardoso, o quadro, assim como em Brás Pires, também está completo. “Mas um já avisou que sai nos próximos dias porque passou em um concurso em cidade maior e dois deixaram claro que só ficam até o final do ano”. O médico com menos tempo de casa em Piranga está há apenas dois meses na cidade, que tem aproximadamente 18 mil habitantes. “Muitos alegam, ao ir embora, que a cidade é muito pequena”, conta Ariadne.

A consequência do vaivém de médicos, segundo Ariadne, é o aumento da dependência do município de participar dos consórcios de saúde, sistemas formados por cidades, entres as quais uma de maior porte, que concentra a realização de exames de complexidade mais elevada. Os custos são rateados entre as prefeituras.

Zona Rural Se os pequenos municípios têm dificuldades para contratar médicos para trabalhar em suas sedes, o desafio de encontrar profissionais dispostos a atender na zona rural é maior ainda. Quem paga o pato são os moradores dessas localidades, onde a assistência à saúde é precária. O problema é enfrentado em Bonito de Minas, de 8,8 mil habitantes – distante 603 quilômetros de Belo Horizonte, na Região Norte. Um dos municípios mais pobres do estado, Bonito de Minas tem uma grande extensão territorial: 3,9 mil km quadrados. “Existe localidade distante 150 quilômetros da sede. Para atender num lugar desse, o médico sai da cidade às 8 horas da manhã e só chega ao destino por volta do meio-dia”, relata o prefeito José Raimundo Viana (PR).

Ele conta que, diante dessa situação, tem que se esforçar muito para encontrar médicos dispostos a trabalhar no município. “Pagamos R$ 14 mil para um médico. Por menos disso, nem recém-formado quer vir para a cidade”, diz Viana. “Eles alegam que nos municípios pequenos não podem atender em mais de um local, como acontece nas cidades maiores”, diz o prefeito.

Bonito de Minas tem apenas um centro de saúde e, atualmente, conta com cinco médicos. “Contratamos os médicos por licitação por pregão. O contrato tem validade de um ano”, explica o prefeito. De acordo com Raimundo Viana, os profissionais atendem na sede do município de segunda a sexta-feira e também dão plantão em localidades da zona rural. Dos cinco médicos, dois estão morando no município e três em Januária, a 40 quilômetros de distância.
O prefeito Raimundo Viana disse que os atuais médicos foram contratados na própria região. “Mas tivemos que procurar em Belo Horizonte e Brasília”, relata. Situação semelhante é verificada em Ninheira, de 9,75 mil habitantes, a 780 quilômetros de Belo Horizonte, no extremo norte de Minas. “Por causa da distância dos grandes centros temos que pagar um salário muito alto para contratar médicos. O valor que pagamos é o dobro do salário pago a eles em cidades de porte médio”, diz o secretário municipal de Saúde de Ninheira, Laerte Mateus. Atualmente, a cidade conta com cinco médicos, que recebem R$ 13,5 mil por seis plantões mensais e pelo atendimento no Programa de Saúde da Família (PSF).

O secretário de Saúde de Ninheira diz que para contratar os profissionais, além de anúncio na internet, tem que procurar faculdades e manter contato com o Conselho Regional de Medicina (CRM). Mesmo assim, enfrenta barreiras para a admissão imediata. “Quando sai um médico do município, demoramos de 30 a 60 dias para conseguir contratar outro. A dificuldade é maior no final de ano, quando vencem os contratos”, diz Laerte.

Formação também sai cara

Na análise do presidente da Associação Médica de Minas Gerais (AMMG), Lincoln Lopes Ferreira, o médico deve ser valorizado. Ele destaca que a formação é longa, sendo necessários seis anos para concluir a graduação e outros quatro para o profissional se tornar especialista. Ferreira argumenta que os salários devem ser elevados na medida em que o investimento na formação do médico é alto. Ele calcula que o valor para formar um médico, durante seis anos de faculdade, é de R$ 600 mil. Se forem considerados os quatro anos de especialização a quantia sobe para R$ 1 milhão. “O nível do salário é compatível com o nível de formação profissional”, compara.

Porém, Ferreira entende que se faltam médicos em algumas cidades o problema não é de dinheiro, mas carência de estrutura. “Para mudar de cidade o médico precisa de um contrato de trabalho adequado, com previsão de multa por rompimento ou atrasos de salário”, entende Ferreira. O representante dos médicos exemplifica dizendo que é comum tudo seguir bem no início, mas em poucos meses a situação muda. “Cai um secretário de Saúde e o médico é demitido ou até muda o prefeito e o novo não renova o contrato”, detalha. De acordo com Ferreira, em algumas cidades são oferecidos salários altos, até três vezes mais do que recebe o prefeito, mas nenhum médico quer trabalhar, pois não sente segurança.

Outro ponto destacado por Ferreira é a escassez de equipamentos. “A medicina é uma profissão que evoluiu muito. A figura do médico com um estetoscópio e o aparelho de pressão resolvendo os problemas deixou de ser ideal há 40 anos”, ressalta. Em Minas Gerais, estado com centenas de cidades pequenas, com menos de 10 mil habitantes, é complicado, na análise de Ferreira, equipar todos os municípios com a tecnologia necessária. “O médico sem infraestrutura de trabalho é um espectador privilegiado do sofrimento humano”, diagnostica Ferreira.

Carreira estadual

Para o presidente da AMMG, muitas cidades têm porte de bairro de cidade grande e fica muito caro montar uma estrutura adequada em todas. A solução, na visão da AMMG, é a regionalização da saúde e a criação de uma carreira estadual para os médicos. “Muitas vezes, os prefeitos tentam transferir para a classe médica uma responsabilidade que não é dela”, defende Ferreira. O último levantamento da Aliança Global para a Força de Trabalho em Saúde, organismo das Nações Unidas, apontou que 455 das 5.560 cidades do Brasil não tem médico .

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