SOCIEDADE DE MERCADO POR MICHAEL SANDEL

O Globo realizou excelente trabalho ao entrevistas um dos mais sérios críticos da chamada sociedade de mercado. A reporter Mariana Timóteo soube explorar bem o assunto em espaço resumido. Reproduzo.

‘O mercado invadiu quase tudo’: entrevista com Michael J. Sandel

 

11/08/2012 – 07:50 | Mariana Timóteo, de São Paulo
No Brasil para palestras sobre novo livro, filósofo americano critica interferência da lógica financeira na vida pública e particular.

A empresa americana LineStanding.com apresenta-se como líder “em ajudá-lo contra a multidão”. Por meio dela, lobistas pagam para que alguém fique na fila de audiências no Congresso, ajudando-os a passar à frente de, por exemplo, representantes comunitários. É também por dinheiro que se tenta despertar o gosto pela leitura em crianças de várias escolas americanas: elas recebem US$ 2 por cada livro lido. Viciadas em drogas recebem para ligar as trompas, assim como obesos ganham dinheiro para emagrecer e tabagistas para parar de fumar. Compram-se óvulos, aluga-se um útero (mais barato na Índia do que nos EUA), vende-se sangue.Tantos e tão surpreendentes exemplos são usados como argumentação contra o “preocupante nascimento da sociedade de mercado, para a qual quase tudo está à venda”, segundo o filósofo americano Michael J. Sandel, em seu mais novo livro: “O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado” (Civilização Brasileira, tradução de Clóvis Marques).

Popstar da filosofia atual, Sandel, de 58 anos, foi eleito pela revista “Newsweek” o estrangeiro mais influente este ano… na China. Tudo por conta do curso “Justiça” — disponível em livro (“Justiça: o que é fazer a coisa certa”) e no site Justice Hard. No curso, acompanhado por mais de 15 mil alunos de Harvard, Sandel usa exemplos cotidianos para ilustrar o pensamento de Aristóteles, Kant e John Stuart Mill, discutindo temas como ética, moral e a política como veículo para atingir o bem comum.

Esta semana, Sandel visitou São Paulo, Fortaleza e Brasília, onde deu concorridas palestras de quatro horas, adaptando à realidade do país suas inquietações relacionadas ao triunfalismo da economia de mercado (“É justo Neymar ganhar R$ 3 milhões por mês para jogar no Santos enquanto um professor do ensino médio ganha R$ 1 mil?”, perguntou). Sandel conversou com O GLOBO depois da palestra em São Paulo.

Em “O que o dinheiro não compra” o senhor lista uma série de exemplos para questionar o fato de o dinheiro atualmente comprar quase tudo, distinguindo entre um país ter uma economia de mercado e ser uma sociedade de mercado. Qual é a diferença entre uma e outra?

A economia de mercado é uma ferramenta valiosa para organizar a atividade produtiva, compensando, por exemplo, quem se esforça mais. Isso trouxe prosperidade e crescimento econômico a vários países. Mas estamos virando uma sociedade de mercado, adotando um estilo de vida no qual os valores de mercado invadem quase tudo em nosso cotidiano. Minha preocupação é que isso nunca foi debatido. Escolhemos viver assim? O dinheiro deve valer mais do que outros bens e práticas sociais? Ele deve invadir, como vem invadindo, vida familiar, amizade, sexo, procriação, juventude, educação, natureza, arte, esporte e até como encaramos a morte? Para mim, o grande debate que falta nas democracias atuais é sobre até que ponto o mercado serve ao bem comum, ao bem público e em que locais ele simplesmente não deve entrar. Isso não é ser contra a economia de mercado, é apenas avaliar se o dinheiro deve invadir tanto a nossa vida assim.

Um exemplo disso, um caso importante nos EUA, é a segurança nacional.

Sim, nunca nos perguntaram se queríamos mais agentes privados de segurança do que soldados no Iraque e no Afeganistão. Queríamos que as guerras fossem entregues à iniciativa privada? Foi isso que aconteceu. E acontece em muitas áreas: educação, saúde, relações pessoais. Até segurança criminal. Nos EUA, no Reino Unido e na Austrália, estão privatizando penitenciárias. Ou seja, o governo está abrindo mão de bens sociais, como a segurança, que tradicionalmente deveriam ser garantidos por ele.

E como se chegou a este ponto? Quais os riscos que esta sociedade de mercado sofre?

As últimas três décadas presenciaram o triunfalismo do mercado. O fim da Guerra Fria fez o capitalismo parecer ser o único sistema viável. Partiu-se do princípio de que o mercado governaria tudo na vida. Para mim, foi um erro de compreensão. E uso exemplos para expressar meu pensamento, uma abordagem filosófica do papel do dinheiro e dos mercados. Quase sempre podemos pensar nesses casos todos descritos no livro por via dos argumentos da justiça e da corrupção. Quanto maior o número de itens que o dinheiro compra, menor o número de oportunidades para que pessoas de diferentes camadas sociais se encontrem. É justo isso? É ético quem tem mais explorar quem tem menos dinheiro? Não gostaríamos de viver numa sociedade em que todos se sentissem mais incluídos? O dinheiro por vezes corrompe valiosos bens humanos e cívicos.

Foi deliberada a escolha de, em seu livro, priorizar os exemplos às soluções? Talvez com a intenção de atrair não apenas os simpatizantes às suas ideias, como também os defensores mais ferrenhos da economia de mercado e suas consequências sociais?

As soluções passam pelo debate, e não precisam ser as mesmas para todas as democracias. O que cada sociedade tem que descobrir é como ela quer viver junta. Mas você está certa, não tenho todas as soluções, o que quero mesmo é estimular o debate. E me surpreendi com a frequência, nos 24 países em que dei palestras nos últimos dois meses, da reação de direitistas, conservadores, dos adeptos do mercado livre total. Muita gente defende os novos valores de mercado sem parar para pensar sobre eles. Mas quando para, muda de opinião. Quero atrair mesmo quem não compartilha minha visão política, mesmo quem não vote pela reeleição de Barack Obama.

O senhor é defensor de Obama e elogiou a recente reforma da saúde, apesar de apontar seus problemas. Mas critica a forma com que os bancos foram resgatados pelo governo americano após a crise de 2008. Essa crise produziu movimentos sociais de contestação e debate sobre os rumos da economia de mercado , como os Indignados da Espanha e o Occupy Wall Street. Por que esses movimentos morreram na praia?

O resgate dos bancos pode ser definido como corruptor em seu sentido mais amplo, porque premiou pessoas que não mereciam, instituições que agiram com desonestidade. Elas foram resgatadas e não foram obrigadas a prestar contas. O contribuinte que deu dinheiro para o resgate sentiu-se lesado. Muita gente, durante a crise, achou que entraríamos numa época de questionar a moral dos mercados, revendo seus valores. Me surpreendeu muito este debate não ter acontecido. Os movimentos chegaram, o “Occupy” colocou na agenda política questões sobre desigualdade e os abusos da indústria financeira, mas não pôde se sustentar como movimento político. Não fez a passagem de movimento de protesto a movimento social genuíno, que poderia virar político depois — isso é uma diferença importante. Eles poderiam ter organizado comunidades, feito o trabalho político pesado, estimulado o debate público que é necessário para criar um movimento mais genuíno.

O senhor fala muito em debate público. Como este debate deve acontecer?

As famílias, as escolas são um espaço ótimo. As crianças devem ter aulas de debate, devem ser estimuladas pelos pais a pensar e discutir questões que afetam seu dia a dia. O que acontece atualmente, em escolas, ou mesmo famílias, é adultos substituírem o gosto pelo aprendizado por dinheiro — recompensando a criança, financeiramente por exemplo, para que ela estude ou leia livros. Será que isso não é uma forma de corrompê-la? Existem maneiras melhores de estimular sua curiosidade? As universidades e a mídia têm um papel importantíssimo para criar um debate sustentável sobre questões que importam, frequentemente negligenciadas. A mídia tem que se empenhar mais, colocar essas questões ao público e aos políticos.

O espaço que o mercado ocupou na vida pública tirou a importância dos políticos? Um professor veterano da francesa Sciences Po disse recentemente que, se há 20 anos a maioria de seus alunos queria ser político, hoje a maioria quer ser executivo. Segundo ele, isso faz com que os intelectuais mais preparados se afastem do Estado. Por que isso acontece?

A frustração com a politica e os políticos é um fenômeno global das democracias. O mercado, as grandes corporações esvaziaram a política que, por sua vez, tornou-se gerencial e tecnocrata. Faltam políticos para pensar em questões morais, éticas, de bem-estar social. Além disso, o povo está desiludido com a política e essa desilusão toda afeta quem quer entrar para ela também. Quem perde com isso é a democracia.

O senhor considera o julgamento do mensalão uma oportunidade de o brasileiro recuperar a fé em suas instituições e sua política?

Só agora estou me familiarizando com o tema. Acho importante para as instituições brasileiras e para o público discutir como o dinheiro corrompe a justiça e a democracia.

E o que o dinheiro ainda não compra?

A cultura e a educação cívica de um cidadão. O amor e a amizade estão entre os mais preciosos bens humanos que o dinheiro ainda não compra. Apesar de já comprar expressões de afeto, como brindes de casamento e pedidos de desculpa. O mercado está o mais perto possível de comprar o afeto, mas acho que não vai chegar lá.

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