Rose Arruda e Ruth Bolognese e o Centro de Curitiba: Brilhantes.

Do Jornale

A nova revolução no Centro de Curitiba

Sex, 01 de Fevereiro de 2013 14:15
O Sesc Paço da Liberdade completa 4 anos em março

Texto: Rose Arruda e Ruth Bolognese
Fotos: RA/RB

Dois fatos permanecem intocados na memória dos comerciantes mais antigos do Centro de Curitiba: o primeiro, fenômeno tão natural quanto surpreendente, foi a neve que cobriu a cidade naquela gloriosa manhã de julho de 1975. O segundo, dramaticamente humano e ousado, foi o fechamento para o tráfego de veículos da histórica Rua XV de Novembro, em 1972. 

A neve transformou a sisuda capital paranaense numa cidade alegre e fervilhante, durou poucas horas, não provocou nenhum reflexo em sua rotina, a não ser o de ter esgotado o estoque de filmes para máquinas fotográficas nas lojas, mas se tornou, para sempre, uma das lembranças mais caras aos curitibanos.

Já o fechamento da Rua XV de Novembro, obra e arte do então prefeito Jaime Lerner, aconteceu num final de semana, com o comércio totalmente fechado, para evitar embargos judiciais porque nem de longe foi uma unanimidade entre os próprios comerciantes, e causou uma profunda transformação no centro da Capital, com reflexos que ainda hoje se fazem sentir. O Calçadão foi imitado em todo o Brasil e marcou o início de uma revolução urbana que nos 30 anos seguintes colocariam Curitiba como a cidade mais moderna do país. Para os comerciantes, que ao abrirem as portas de suas lojas na segunda-feira encontraram floreiras e árvores no lugar dos carros, e foram os mais diretamente afetados, a lembrança é de uma intervenção pública única, tão rápida e definitiva como jamais foi vista naquela região.

A “era Lerner” que tanto marcou Curitiba e colocou-o entre os urbanistas mais celebrados do país, promoveu outras intervenções, mais amplas, pela cidade, e seguiu inovando em termos de transporte coletivo e mobilidade urbana. Enquanto isso, a região central adaptou-se às circunstâncias. Assistiu à saída de grandes lojas de departamentos e à chegada do comércio popular. Acompanhou a construção dos shoppings centers, novidade que agradou a classe média curitibana e concentrou as lojas de marcas e as novas lojas de departamentos. Como em qualquer grande cidade brasileira, o Centro de Curitiba foi perdendo importância, charme, tradição e segurança.

Passados mais de 40 anos da primeira revolução de Jaime Lerner, era preciso buscar um novo caminho para recuperar as áreas degradadas e tornar o Calçadão e o seu entorno um foco de atração para o curitibano, tanto para revitalizar o comércio como para viabilizar a moradia. Morar no Centro tornou-se uma opção tão antiga – e esquecida – quanto andar de bonde. E quem iria enfrentar insegurança, áreas degradadas, barulho, confusão só para morar no Centro?

Restaurar para mudar

Foi nessa busca para recuperar o Centro de Curitiba de forma gradual, com a participação efetiva dos dois principais segmentos interessados – poder público (Prefeitura) e comércio (Sistema Fecomércio, Sesc/Senac) – que se iniciou, em 2007, a transformação mais importante de toda a região depois que a Rua XV de Novembro foi fechada para o tráfego em 1972.

A prefeitura cedeu por 25 anos, renováveis por mais 25, o Paço Municipal, na Praça Generoso Marques, para a Federação do Comércio do Paraná instalar ali um ambicioso projeto cultural. “Essa foi uma parceria bem sucedida entre a prefeitura e a Fecomércio porque todos os segmentos envolvidos saíram ganhando. A cidade ganhou também”, afirma o presidente da Fecomércio do Paraná, Darci Piana. Nascia o Sesc Paço da Liberdade, centrado na restauração do Paço.

Teve início, então, a recuperação do velho edifício, no coração de Curitiba, tão familiar quanto desgastado e esquecido por quase cinco anos, depois de ter sediado o Museu Paranaense. Trabalho realizado sob a supervisão técnica do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), com a cuidadosa participação de restauradores e arquitetos, além da permanente vigilância dos comerciantes do Centro. O projeto enveredou por um caminho, esse sim, surpreendente, de revitalizar toda uma área urbana sem mudar uma rua, sem construir um viaduto ou derrubar uma loja, sem exigir uma única desapropriação. No contexto simples dos novos tempos, optou-se por customizar a área, dando-lhe um novo vigor e uma nova roupagem, mas com os pés bem fincados na própria história e nos diversos interesses dos comerciantes, dos moradores e dos frequentadores locais.

Abrão Assad, arquiteto do projeto de restauro e reciclagem

“O Paço é o edifício mais importante, mais nobre e mais interessante de toda a Curitiba”, afirma, categórico, o arquiteto Abrão Assad, autor do projeto de restauro e reciclagem. Mais de 200 profissionais, entre arquitetos, restauradores e historiadores trabalharam por quase dois anos para que o Paço recuperasse totalmente suas características elegantes, de estilo eclético, com detalhes art-noveau.

 “Nossa proposta era resgatar o edifício de grande valor histórico para Curitiba e transformá-lo num marco da cultura local e também paranaense, pela influência que passaria a exercer em todo o Estado”, afirma o presidente da Fecomércio, Darci Pianna. Na parceria, a Fecomércio investiu R$7 milhões em obras de reforma e no trabalho especializado da restauração do edifício. Na sequência, a prefeitura realizou revitalizou as ruas Riachuelo e São Francisco.

Diálogo com a vizinhança

Tudo pronto, em 29 de março de 2009, aniversário da Capital, foi implantado o Sesc Paço da Liberdade , que direcionou todo o foco do trabalho na área da cultura, com o uso de diversas ferramentas e linguagens. “Abrimos as portas do Paço e apostamos na democratização da cultura, em suas mais diversas manifestações, para manter um diálogo permanente com nossos vizinhos comerciantes, com os moradores do centro, com os jovens, com os turistas que nos visitam”, diz a gerente executiva do Sesc Paço da Liberdade,  Celise Helena Niero, socióloga que se dedica, com o mesmo carinho, a cuidar do acervo histórico e da variada programação cultural.

O resultado da convivência da equipe do Sesc, especialmente com os 58 lojistas instalados nas ruas que cercam a Praça Generoso Marques, tem rendido resultados  em diferentes direções. Alguns são percebidos facilmente.  As lojas ganharam novo visual e passaram por reformas, e seus donos aproveitam as noções aprendidas em cursos de vitrine, realizados pelo Sesc. O objetivo é atrair compradores fora dos picos do comércio, que são Dia das Mães, Dia da Criança e Natal no Paço, que enche a região de luz. Para atrair a atenção dos participantes da Virada Cultural, por exemplo, o Sesc se tornou um dos seus patrocinadores.

Celise Niero, gerente executiva do Sesc Paço da Liberdade

Celise faz contas rápidas e comemora: nos últimos três anos, o entorno do Paço ganhou 15 novas lojas, o comércio vai se diversificando e o público que consome as promoções culturais do Sesc também. Onde se vendia mala agora tem material para pesca; um sebo, novidade na área, abriu as portas por lá.  As tradicionais lojas de móveis usados se tornaram mais requintadas e hoje se apresentam como “boutiques de móveis antigos”. Há quem aposte que, em breve, se tornarão antiquários.

Dono dos tradicionais Armarinhos Bandeirantes, Jorge Derviche Filho, segunda geração da família, há 43 anos vendendo lãs, aviamentos e fios, diz que a região está quase irreconhecível. “Antes do Paço ficar bonito como agora, muitas senhoras, que são minhas freguesas hoje, não vinham comprar . A sujeira das ruas e, principalmente, a falta de segurança, afastavam os clientes. Muita gente pensava que no comércio dessa área só tinha artigo de carregação”, diz ele.

Outro comerciante, da área de alimentação, Chau Cham Pui, por conta das melhorias nas vizinhanças da Praça Generoso Marques decidiu ampliar seu negócio, investiu em mais um restaurante, vizinho ao primeiro, e abriu 14 novas vagas de emprego. A decisão se mostrou acertada. Chau pretende aprender inglês para se comunicar com seus novos clientes: além dos frequentadores habituais, ele agora recebe turistas dos mais diferentes países que visitam a região.

O som estridente praticamente desapareceu  no entorno do Paço.  Os varejistas, reunidos com o pessoal do Sesc, perceberam que o conjunto das frases gritadas de seus marqueteiros de plantão,  tinham pouco efeito nas vendas. Aquela confusão de vozes, intercaladas por músicas, infernizavam a vida dos passantes e de quem trabalha ali, principalmente em épocas de sucesso como o de Michel Teló, reproduzido à exaustão.

Mas, além do incremento nos negócios e da paisagem naquela área, que realmente se transformou, e para muito melhor, outros efeitos da revitalização do Paço estão ocorrendo quase imperceptivelmente, e nem por isso são menos importantes. Em três anos de funcionamento do Sesc, o prédio do Paço não foi vandalizado uma única vez. Respeito assim, conforme Celise, conquista-se.  “É muito provável que os pichadores sintam que esse espaço é da comunidade, é de todos; um patrimônio histórico e cultural importante e que deve ser preservado”. O pessoal do Paço faz por donde: tem levado turmas inteiras de estudantes das escolas municipais para conhecer de perto o espaço, escrever sobre ele, fotografá-lo até reunir material suficiente para montar exposições no próprio local.

Moderno e antigo reunidos

 As atrações culturais são variadas. Recentemente, quem quis pôde assistir ao filme “Vou rifar meu coração”, em cadeiras e bancos da Praça Generoso Marques. Dia desses, 130 pessoas aproveitaram a hora do almoço para ouvir música. Para o público alvo do Sesc, comerciantes, foi realizada campanha de prevenção do câncer de mama.

Cada vez mais, jovens da Universidade Federal do Paraná, frequentam o Paço, também para aprender sobre arte eletrônica, por exemplo. Muitas donas de casa querem saber tudo sobre orçamento doméstico participando das atividades da Cultura de Bolso, que ensina sobre como não gastar mais do que ganham. Moradores da Região Metropolitana também estão descobrindo o Paço, nos finais de semana ou quando vêm pagar ou renovar carnês nas lojas Riachuelo ou Pernambucanas.

A vida nova da Praça Generoso Marques se espalha pelas ruas Riachuelo, que tem forte tradição comercial, e São Francisco, um polo de gastronomia. A Riachuelo, até então uma das ruas mais degradadas da Capital, ganhou nova iluminação, sinalização, pavimento e calçadas novas. A boa influência não para: os comerciantes das duas primeiras quadras da Saldanha Marinho também já falam em investir em mudanças gerais para conquistar a clientela.

Uma visita ao interior do Paço é uma viagem no tempo, mas com um toque de modernidade. Até uma homenagem a Omar Sabbag, engenheiro,  último prefeito que nele despachou até 1969, tem sentido histórico e de informação. O seu gabinete, com móveis em estilo manoelino, foi montado novamente e pode ser apreciado no terceiro andar do edifício, onde também funcionam ateliê e estúdio. No térreo, café, programações culturais, exposição, livraria, sala de cultura. No primeiro andar, salão de apresentações; laboratórios digitais e de arte eletrônica. Espaço multiuso e sala de atos e reuniões estão no segundo andar.

O Sesc trata esse conjunto de ações e programas como “o renascimento do Paço”, juntando o que há de mais moderno, como arte eletrônica, com o que há de mais antigo, o prédio tombado e devidamente restaurado e preservado. “É um trabalho instigante. O prédio está equipado para valorizar a cultura e ao mesmo tempo retomar o caminho que lhe deu origem, que é contribuir, uma vez mais, para a revitalização do Centro de Curitiba”, diz a gerente Celise.

Moradores que retornam

Jorge Derviche Fo vende mais para nova e maior clientela

Um dado oficial apenas pode comprovar que dá certo investir na restauração das nossas riquezas arquitetônicas e apostar na promoção da cultura, como caminho para recuperar áreas urbanas já degradadas, é o levantamento do último censo: Curitiba foi a única entre as capitais brasileiras que registrou um discreto aumento de moradores no Centro, nos últimos 10 anos.

Aproveitando essa tendência, a Cooperativa de Agentes do Mercado Imobiliário anuncia em vistosa placa em frente ao número 223, da Rua Riachuelo, que ali será construído o Edifício Primus, com estúdios, apartamentos de dois quartos e salas comerciais. A fachada do antigo imóvel, mesmo corroída pelo tempo, ainda está preservada.  

Os motivos para esse reencontro dos curitibanos com a região do Paço da Liberdade são os mais óbvios: além de todas as facilidades de consumo, alimentação e lazer que o Centro da cidade proporciona, encontram-se ali  ruas bem cuidadas, a preservação do seu edifício histórico e programação cultural de primeira, e variada. Com um pouco de sorte, a cada 30 ou 40 anos, a neve pode cobrir tudo de branco. E quem é que não gostaria de morar num lugar assim?

O Paço da Liberdade e a tradição de inovar 

Desde a restauração, concluída em 2009, na gestão do então prefeito Beto Richa, os três andares do Paço da Liberdade, distribuídos em 500 metros quadrados, voltaram a exibir a elegância e o requinte de trechos de paredes com textura de mármore, cabeças de ninfas, frisos e toques dourados, lustres e mais lustres, e outros detalhes que são o símbolo de uma época.

A construção, entre a primeira e a segunda década do século XX, substituiu o primeiro mercado de Curitiba. Era ali que tropeiros vindos de longas distâncias faziam suas vendas de toucinho e cereais. O terreno da Praça Generoso Marques servia como estacionamento das carroças.

Depois de Paço Municipal, teve o seu nome mudado para Paço da Liberdade, o mesmo da rua que levava os passageiros desembarcados do trem Paranaguá-Curitiba até ele. Quando inaugurado em 1916, Curitiba tinha mais de 65 mil almas contadas pelo censo de 1912, e o prédio, sede da Câmara de Vereadores e da Prefeitura, era o centro da vida política e administrativa da cidade que fervilhava com os Planos de Remodelação de Cândido de Abreu, que mostrou qualidades de urbanista.

Foi o decidido e ousado Cândido Ferreira de Abreu, um engenheiro civil em seu segundo mandato como prefeito de Curitiba, quem fez o projeto e construiu o Paço. Ele não economizou nos detalhes que dão requinte à construção. São de granito os degraus da entrada e as colunas; de peroba rosa as escadarias que levam de um andar ao outro; as portas e janelas internas, de cedro seco; as telhas da cobertura e o elevador, pioneiro na cidade, foram importados da Europa. No alto da torre de 15 metros, três relógios elétricos foram instalados no campanário. Até hoje a região, por onde circulam 40 mil pessoas/dia, pulsa ao ritmo deles. Pouca gente sabe, mas os relógios marcam “a hora de Curitiba”.

Naqueles tempos o Paço significava o prenúncio de nova era para Curitiba, no conjunto de uma série de providências do prefeito, como o alargamento das ruas para permitir o trânsito de bondes elétricos, carros e pedestres. O prédio, definido como de estilo eclético, com detalhes ornamentais de art nouveau, servia também para dar mais dignidade às reuniões dos vereadores, que, por falta de local apropriado, realizaram seus debates e deliberações administrativas na cadeia pública, que ficava naquele largo, quando da Monarquia; em um corredor da Igreja Matriz e mesmo em casas emprestadas, na República. Os cidadãos ganharam um endereço para serem ouvidos e fazer suas reivindicações.

 A nova construção teve um forte impacto político e arquitetônico, por servir de modelo para o surgimento de outras construções não apenas no seu entorno. Os dividendos econômicos chegaram junto com a admiração que o Paço provocava e faziam o curitibano provar o gosto do futuro. A função do edifício como Paço Municipal, ou sede da prefeitura, se estendeu até 1969, quando foi cedido ao Projeto Rondon por um ano. Restaurado em 1974, transformou-se no Museu Paranaense, administrado pelo governo do Estado. Em 2002, o Museu foi transferido para o Alto São Francisco e o edifício voltou ao domínio do município.

Nessa última restauração, uma agradável surpresa: descobriu-se parte do piso e das paredes do Mercado Municipal que ali funcionou. Preservados, podem ser apreciados através de molduras de vidro no chão do térreo, no Paço.

Por todo conjunto arquitetônico e histórico que guarda, o Paço da Liberdade é o único edifício paranaense tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional, Estadual e Municipal.

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