MAIS ESPETÁCULO NO CASO EVANGÉLICO

Quando parecia que a Ação Penal envolvendo as mortes na UTI do Hospital Evangélico ia ganhar o seu curso normal, longe da promoção midiática que naturalmente envolveu o caso quando seus detalhes vieram a público, eis que o caso volta ao centro do espetáculo com declarações bombásticas das conclusões de um dos auditores que se debruçou sobre os prontuários.
Duas circunstâncias causam certa espécie nesse momento.
Coincidência ou não, as declarações do auditor Mário Lobato vieram a público justamente no instante em que o Ministério Público anuncia que pretende pedir a reforma da decisão do Juiz da Vara do Tribunal do Júri que decidiu pela libertação da médica Virgínia Soares. 
Obviamente, as declarações do Auditor, estrategicamente veiculadas em horário nobre na noite de domingo, serão utilizadas como fundamento do recurso do Ministério Público para alegar que a médica deve seguir presa em razão do “clamor público” que, agora, coincidentemente, está, digamos, “restaurado”.
A única maneira de se criar clamor público nesse caso seria seguir com a espetacularização do caso, ao que as revelações médico auditor se prestam muito bem, tampouco parece que isso não acontecerá e é pouco provável que o Judiciário se deixe levar por isso.
Outra circunstância digna de nota é a própria divulgação de declarações do auditor de partes de uma auditoria que, ao que parece, ainda está inconclusa. Disse Mario Lobato que “Os casos que já estão fechados são, praticamente, mais de 20 casos já, e nós temos quase 300 já para fazer esse fechamento”. 
Ora, parece pouco razoável, pelo menos para quem tem algum apreço pelo Estado de Direito Democrático, que partes de uma auditoria que ainda não foi plenamente concluída e que não foi submetida ao contraditório venha a público da forma como veio: apenas para espetacularizar ainda mais o caso. Qual o sentido e a razão de se promover a divulgação dessa auditoria? 
A procedência da acusação de que médica cometeu as tais barbaridades é coisa que será aferida na Ação Penal da qual, diga-se, já é ré, onde prevalecerá o respeito ao contraditório e a ampla defesa, princípio basilar das sociedades civilizadas.
Mas já passou da hora de acabar com a espetacularização do caso e é lamentável que o médico auditor do Ministério da Saúde tenha se permitido usar para esse fim.
Agora é hora de deixar o Judiciário trabalhar.
Do Jornale:
Auditor acredita em mais mortes no Evangélico
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Sindicância identificou cerca de 20 falecimentos semelhantes aos citados na denúncia


O médico Mário Lobato, auditor do Ministério da Saúde e coordenador da sindicância aberta no Hospital Evangélico, em Curitiba, para investigar as denúncias de que pacientes eram mortos dentro de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), acredita que o número de óbitos pode ser maior do que os sete apontados pelo Ministério Público.
A sindicância identificou cerca de 20 falecimentos semelhantes aos citados na denúncia. “Os casos que já estão fechados são, praticamente, mais de 20 casos já, e nós temos quase 300 já para fazer esse fechamento”, afirmou o médico em entrevista ao programa Fantástico, na TV Globo.
Segundo denúncia do Ministério Público do Paraná, pacientes internados na UTI, que foi chefiada por sete anos pela médica Virgínia Soares de Souza, foram mortos por asfixia, com uso do medicamento Pavulon e diminuição de oxigênio no respirador artificial. Além da médica, outras sete pessoas foram acusadas, sendo que cinco chegaram a ser presas.
A médica foi a última a conquistar a liberdade, uma vez que teve a prisão temporária decretada. Ela ficou um mês detida e agora responderá ao processo em liberdade. Conforme determinado pela Justiça, o caso tramita sob segredo judicial.
A equipe chefiada pelo médico Lobato analisa mais de 1.700 prontuários dos últimos sete anos e também as provas do processo. “O depoimento das pessoas que trabalhavam lá dentro confere, praticamente, totalmente, com os prontuários que foram analisados”, afirmou Lobato.
Uma das mortes citadas no processo é a de Ivo Spitzner, que faleceu em janeiro deste ano. Para sobreviver, ele precisava da ajuda de aparelhos. Nestes casos, os pacientes recebem diferentes percentuais de oxigênio, conforme a necessidade. Em casos irreversíveis, a equipe médica e a família podem decidir regular a máquina para o mínimo de 21%. Com essa concentração, a morte ocorre naturalmente – é o que se chama de ortotanásia, um procedimento que não é ilegal no Brasil.

Pela prescrição médica, às 9h39, foram administrados três medicamentos, sendo um deles o Pavulon. Este remédio faz todos os músculos do corpo pararem, inclusive, os responsáveis pela respiração. Quando usado corretamente, ele permite que o aparelho controle toda a respiração do paciente, sem que o corpo precise se esforçar. Em seguida, às 10h30, uma hora depois de receber as medicações, Ivo Spitzner morreu.

Estes procedimentos também teriam sido a causa da morte de outros pacientes da UTI, de acordo com o Ministério Público. “Todos eles têm o mesmo modus operandi, têm a mesma relação entre a droga e o óbito, o horário bate”, afirmou Lobato.

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