DE CHÁVEZ A MADURO. VALE LER BRESSER PEREIRA

A pretexto do embate brutal que se deu entre duas forças políticas na recente eleição presidencial na Venezuela, que demonstra que o país está dividido, é importante refletir sob todos os âmgulos e pontos de vista, sobretudo entendendo a origem e o que representam essas duas forças que se apresentaram na corrida presidencial com dois fortes candidatos.
Para essa reflexão, há um artigo escrito pelo Professor Luiz Carlos Bresser Pereira, curto e direto, que deve se somar a todas as informações que estão circulando sobre a Venezuela e que contribui enormemente para lançcar luzes sobre todo esse debate.

A luta de Chávez
Luiz Carlos Bresser-Pereira
Folha de S. Paulo, 22.10.2012
Sua retórica dá a impressão de que ele vá implantar o socialismo, mas seus
atos deixam claro que não
Se as liberdades e o sufrágio universal estão assegurados, a democracia,
garantida, e os cidadãos não estão ameaçados de serem expropriados por
políticos revolucionários, não há razão para cidadãos dotados de espírito
republicano votarem e candidatos que defendem os interesses dos ricos. Eles
estarão agindo de acordo com os princípios da justiça se escolherem candidatos
razoavelmente competentes que estejam comprometidos com os interesses dos
pobres. Estas considerações podem ser relevantes para eleitores de classe
média decidirem seu voto, mas o que afinal decide as eleições é o voto dos
pobres, como acabamos de ver na reeleição de Hugo Chávez na Venezuela.
Sua nova vitória em eleições presidenciais comprovou que a Venezuela é uma
democracia, que os pobres lograram votar de acordo com seus interesses. Mas
mostraram também que os venezuelanos de classe média que nele votaram
defenderam os interesses da maioria ao invés de seus interesses oligárquicos, e,
assim, agiram de acordo com o critério republicano de defender o interesse
público.
Chávez não é um revolucionário, mas um reformador. Sua retórica relativa ao
“socialismo bolivariano” causa a impressão que está prestes a implantar o
socialismo na Venezuela, mas seus atos deixam claro que não tem essa
intenção nem esse poder. Essa mesma retórica alimenta a oposição local e dos
Estados Unidos – uma potência imperial que, desde que ele foi eleito pela
primeira vez, procura desestabilizá-lo.
Mais importantes que sua retórica, porém, são suas ações de governo, e estas
apresentaram resultados impressionantes. A renda per capita que, em 1999 era
de 4.105 dólares, passou a 10.810, em 2011; a pobreza extrema foi de 23,4% da
população para apenas 8,8%; e o índice de desigualdade caiu de 55,4 em 1998
para 28%, em 2008, com Chávez.
A Venezuela é um país muito difícil de governar porque pobre e heterogêneo.
E os interesses em torno do petróleo são enormes. Nesse quadro de
dificuldades, Chávez vem representando de forma exemplar a luta de uma
coalizão política desenvolvimentista formada por empresários (poucos),
trabalhadores e burocracia pública contra uma coalizão liberal e dependente
formada por capitalistas rentistas, financistas, e pelos interesses estrangeiros; a
luta de um país pobre para realizar sua revolução nacional e capitalista e
melhorar o padrão de vida de seu povo.
Nas últimas eleições o establishment internacional voltou a apoiar o candidato
da oposição. Mas o que tem sido a oposição “liberal” na Venezuela desde a
Segunda Guerra Mundial? Tem sido, essencialmente, uma oligarquia corrupta
que durante 50 anos se alternou no poder em um simulacro de democracia; uma
elite econômica que reduziu a política à partilha das rendas do petróleo entre
seus membros; um governo de ricos que se submeteu sempre às recomendações
de política econômica vindas do Norte, e apresentou, entre 1950 e 1999, a
mais baixa taxa de crescimento do PIB da América Latina.
O establishment internacional ainda não foi vencido na Venezuela, e a nação
venezuelana não está consolidada. Chávez contou com a ajuda dos preços
elevados do petróleo para realizar um governo desenvolvimentista e social.
Não terá sempre essa ajuda. Mas últimas eleições mostraram que o povo
venezuelano construiu uma democracia melhor do que aquela que o nível de
desenvolvimento do país deixaria prever. E que esta democracia é o melhor
antídoto contra a oligarquia interna e o neoliberalismo importado.