LIMINAR PERIGOSA DE GILMAR MENDES PODE GERAR CONFRONTO DE PODERES

Liminar deferida pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que suspende a tramitação, no Congresso Nacional, do projeto de lei que cria restrições para a criação de novos partidos políticos, gera preocupação nos meios jurídicos por se tratar de um perigoso precedente para o equilíbrio entre os três poderes e pode gerar confronto entre legislativo e judiciário.

A determinação é válida até a deliberação final do Plenário da Corte sobre o mérito do Mandado de Segurança (MS) 32033, impetrado pelo senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF).

A decisão de Gilmar Mendes ataca diretamente a própria motivação do Poder Legislativo, ou seja, nas razões que está levando a maioria a adotar as restrições para a criação de novos partidos e, assim, ingressa numa seara que, em tese, segundo juristas ouvidos pelo Jogo do Poder, está reservada exclusivamente ao Legislativo.

Não se trata de coibir um vício de forma na tramitação do projeto ou uma violação do regimento interno da casa legislativa, mas o exame do próprio mérito e da motivação do projeto e antes mesmo que se conclua o seu completo trâmite, com a aprovação e promulgação, quando, então poderia o STF exercer o seu controle de constitucionalidade.

É uma liminar ousada e perigosa que avoca para o STF o poder de controlar a motivação da maioria antes mesmo que ela se consolide através do esgotamento do processo legislativo nas duas casas, independentemente de seus aspetos formais.

O que juristas estão observando é que, no caso concreto, além de se sujeitar às formalidades do processo legislativo, a única regra que impõe prazos ao Poder Legislativo para legislar em matéria eleitoral é que as novas regras só podem entrar em vigor 1 ano antes do processo eleitoral, inexistindo disposição tratando do fato de um projeto tramitar mais rápida ou mais lentamente que outro.

Portanto, em princípio, nada poderia obstar o trâmite do projeto, exceto eventuais violações às formalidades.

No entanto, no caso, o impetrante pediu o arquivamento do Projeto de Lei (PL) 4470 – aprovado pela Câmara e recebido no Senado Federal como PLC 14/2013, afirmando tão somente que foi “casuísticamente forjado” para restringir direitos fundamentais de grupos políticos minoritários e configura “nítida situação de abuso legislativo”.

Ao analisar o pedido de liminar, o ministro Gilmar Mendes, relator do caso, afirmou vislumbrar “possível violação do direito público subjetivo do parlamentar de não se submeter a processo legislativo inconstitucional”. Ele considerou: “(i) a excepcionalidade do presente caso, confirmada pela extrema velocidade de tramitação do mencionado projeto de lei – em detrimento da adequada reflexão e ponderação que devem nortear tamanha modificação na organização política nacional; (ii) a aparente tentativa casuística de alterar as regras para criação de partidos na corrente legislatura, em prejuízo de minorias políticas e, por conseguinte, da própria democracia; e (iii) a contradição entre a proposição em questão e o teor da Constituição Federal de 1988 e da decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal na ADI 4430”.

Na ação apresentada ao Supremo, o senador Rolemberg relata que o PL 4470 foi apresentado poucos dias depois da publicação da ata de julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4430 pelo STF, sobre a distribuição do tempo de propaganda eleitoral entre legendas criadas após as últimas eleições, que “viabilizou, em termos práticos”, que o então recém-criado Partido Social Democrático (PSD) disputasse as eleições de 2012 “com recursos financeiros e de comunicação compatíveis com sua representatividade”.

A questão é: sob o aspecto puramente constitucional, não seria legítimo a maioria faze-lo?

O texto do projeto de lei prevê que a migração partidária que ocorrer durante a legislatura “não importará na transferência dos recursos do fundo partidário e do horário de propaganda eleitoral no rádio e na televisão”.

A aceleração da tramitação do projeto de lei, “antes adormecido”, segundo Rollemberg, ocorre num momento de reorganização de forças partidárias, especialmente as minoritárias, “que buscam legitimamente conquistar seu espaço no contexto do debate político”.

De acordo com o ministro Gilmar Mendes, o STF, ao julgar a ADI 4430, assegurou aos partidos novos, criados após a realização das últimas eleições gerais para a Câmara dos Deputados, o direito de acesso proporcional aos dois terços do tempo destinado à propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, considerada a representação dos deputados federais que migrarem diretamente dos partidos pelos quais foram eleitos para a nova legenda no momento de sua criação. “Essa interpretação foi observada pelo sistema político nas últimas eleições municipais e, portanto, abarcou os atores políticos aos quais foi aplicada até o momento. O PLC 14/2013 parece afrontar diretamente a interpretação constitucional veiculada pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento da ADI 4430”, concluiu o ministro, ao deferir a liminar requerida no MS 32033.

A questão é: onde está a regra que impede o Congresso de alterar as formas do processo eleitoral e do funcionamento dos partidos políticos, inclusive em relação a questões já deliberadas pelo Supremo? Depois que o Supremo decide, o Congresso perde a capacidade de reformar a lei?

O PL 4470 foi aprovado na última terça-feira (23) pela Câmara e agora está sendo analisado pelo Senado.

A decisão de Gilmar Mendes suspendeu a tramitação do projeto.

Após a decisão liminar de Gilmar Mendes, o projeto não poderá tramitar até que o Supremo julgue se ele é constitucional ou não.

O Senado ingressou com agravo regimental contra a liminar de Gilmar Mendes, que é um recurso judicial que pede o reexame de uma decisão monocrática (de um único juiz) pela composição completa da Corte.

Renan acrescentou que o agravo será uma oportunidade de o STF “rever” a decisão tomada.

O tema deverá gerar muita discussão de cunho doutrinário e ideológico no plenário do STF.