A RALÉ, A MÍDIA “IMPARCIAL” E O GOVERNO DILMA

A semana começou com a mídia comentando os resultados do Índice de Desenvolvimento da Família – IDF – , um índice que mede a vida da ralé brasileira considerando seis critérios, sendo eles o da vulnerabilidade da família, renda, desenvolvimento infantil, condições habitacionais, acesso ao trabalho e ao conhecimento.

A manchete da Folha de SP foi “Renda cresce, mas miséria social persiste” (A8 Poder, 27.05.13) e no texto da matéria está dito que “O governo Dilma Rousseff melhorou a renda dos pobres, mas não solucionou os seus níveis miseráveis de acesso a emprego e educação. É o que revela um  indicador criado pelo próprio governo federal para analisar a pobreza no país, cuja base de dados de dezembro de 2012 a Folha obteve por meio da Lei de Acesso à Informação”.

Esse tom foi de João Carlos Magalhães e Breno Costa, na matéria da Folha, até Alexandre   Garcia, em seu comentário na Globo, e que se repetiu por quase todos da mídia que se lançaram na leitura dos números do IDF. A partir daí o que se vê é a pura e simples afirmação do discurso de que “dar dinheiro não resolve” (tem que dar educação e emprego, portanto, o programa não merece continuar porque não vai resolver o problema da miséria). A oposição não abraça esse discurso, por evidentes razões eleitorais, mas ele já é frequente a boca e as mentes dos seus economicistas. Mas esse fator eleitoral, a proximidade da tentativa de reeleição de Dilma (portanto, a necessidade de ser neutro em relação a ele), e o economicismo (aquele que acha que o mundo é um número e que programas sociais só fazem aumentar os gastos públicos), deformam a cabeça da nossa mídia e não permitem que ela faça uma boa leitura do resultado apresentado pelo IDF.

Ora, se estamos em um país que de 1930 até 1980 tornou-se a oitava maior economia do mundo e ao mesmo tempo criou um dos maiores contingentes de miseráveis do mundo, ou seja, enriqueceram as elites e empobreceram os pobres, a notícia de que “a renda dos pobres melhorou” não deveria merecer uma manchete do tipo “BRASIL MELHORA A DISTRIBUIÇÃO DE RENDA” ou “RENDA DOS POBRES MELHOROU” ?

Mas isso implicaria, em primeiro lugar, em reconhecer méritos nas ações do governo, o que não é possível porque a presidente vai concorrer à reeleição e, em segundo lugar, afinal, esses programas aumentam os gastos públicos sem resolver o problema da pobreza (o economicismo fetichista dos números) e isso só se resolve com emprego, desenvolvimento e educação.

Mas o Brasil tornou-se a oitava maior economia do mundo entre 1930 e 1980 e esse desenvolvimento não resolveu o problema da miséria? Geramos emprego, fizemos o Mobral, expandimos a rede de ensino e a miséria aumentou. Como ? Nenhuma palavra dos nossos analistas a respeito disso.

Mas também estamos num momento de muita oferta de emprego e o Congresso está para finalizar o novo Plano Nacional de Educação onde o governo vai destinar 10% do PIB para a educação, uma revolução. Nenhuma linha ou palavra a respeito.

Mas também não deixam de dizer que muita oferta de emprego também não basta na medida em que essas pessoas, que se beneficiam dos programas sociais, não detém qualificação para ter acesso a nenhum emprego. É verdade. Mas também nenhuma palavra sobre a quantidade de cursos técnicos e programas de qualificação que o governo pôs em andamento nos últimos anos, inclusive os anos de Itamar e FHC.

Mas educação também não vai resolver o problema da ralé adulta. Então como fazer? Nenhuma palavra a respeito.

E cultura, grande e fundamental instrumento de libertação da mente humana, fundamental para a superação da miséria em qualquer processo? Nenhuma palavra a respeito.

Aliás, não foram esses aspectos que levou o governo a mudar o critério de aferição da miséria para além do fator renda (economicista)? Nenhuma palavra a respeito.

E assim a coisa vai, a pretexto de ser imparcial, de não parecer adesista ao governo e ao mesmo tempo também com medo de ser injusto com um governo que, afinal, está colocando comida na boca da ralé, a imprensa permanece superficial e improdutiva, perdendo a oportunidade de promover uma análise e um debate sérios sobre o que efetivamente é importante para resgatar  ralé da vala histórica em que a elite brasileira a relegou.

Talvez isso explique o enorme oceano que separa a mídia brasileira (imediatista e superficial) da ciência (no caso, a produção acadêmica onde esse tema vem sendo tratado mais profundamente).