JOAQUIM BARBOSA, POR ELIO GASPARI E JÂNIO DE FREITAS

O Ministro Joaquim Barbosa foi para a vitrine no julgamento do Mensalão, período em que viveu a lua de mel com a mídia brasileira e com amplas setores da pequena burguesia que manteve a audiência do julgamento sempre alta. Ao assumir a Presidência do STF, e, de quebra, do CNJ, Barbosa passou a opinar para além do processo, mais que fazia antes, e a começar encontrar quem não pensa igual e, de mesma forma, exprime a divergência. Elio Gaspari retratou bem esse novo momento do Ministro em seu artigo do último final de semana. Antes, Jânio de Freitas também já havia ingressado nessa seara, abordando um aspecto da personalidade do nosso Ministro que, modo geral, não aparecia ainda na mídia. Textos como esse vão consolidando uma imagem de um ministro do STF que o país ainda não conhecia e que, a continuar na toada que vai, ganhará irreversivelmente o rótulo de polêmico – no popular, aquela pessoa com quem se deve evitar discutir – e caminhará para o inevitável isolamento.

Vamos aos textos.

Joaquim Barbosa e as ‘taras antropológicas’, por Elio Gaspari

Elio Gaspari, O Globo

No primeiro dia do julgamento do mensalão, vendo-se em minoria numa votação preliminar, o ministro Joaquim Barbosa disse lamentar que “nós brasileiros tenhamos que carregar certas taras antropológicas, como essa do bacharelismo”.

Seja lá o que for uma “tara antropológica”, o bacharelismo nacional é certamente uma praga. Barbosa é hoje uma esperança nacional, pelo simples fato de dizer coisas que estão entaladas na garganta dos brasileiros.

Na semana passada, ele expôs mais uma verdade: “Nós temos partidos de mentirinha.” Bingo. Mas onde estava o ministro no dia 7 de dezembro de 2006, quando o Supremo Tribunal Federal derrubou a cláusula de barreira para partidos que não têm votos? De licença.

 

 

Estando de licença, por conhecidos motivos de saúde, Barbosa fez 19 viagens para Rio, São Paulo, Salvador e Fortaleza, com passagens aéreas pagas pela Viúva. Os ministros do STF ganham R$ 28 mil mensais, mais carro, motorista e Bolsa Viagem. Seus similares da Corte Suprema americana ganham o equivalente a R$ 35,6 mil, sem mais nada. Passagens? Nem de ônibus.

A Viúva paga até mesmo as viagens ao exterior (na primeira classe) das mulheres de ministros. Ricardo Lewandowski é homem de boa fortuna familiar. Gilmar Mendes é casado com uma advogada que trabalha num poderoso escritório de advocacia, onde ganha bem. Nada de ilegal. Tudo de acordo com as leis dos bacharéis que dão até R$ 15 mil mensais a sete garçons do Senado.

Quando a repórter Luciana Verdolin perguntou a Barbosa, como presidente do Supremo, o que ele achava da questão, ouviu: “Eu não quero falar sobre este assunto. Eu não li a matéria. Essa matéria é do seu conhecimento. Não é do meu.”

A reportagem podia não ser do seu conhecimento, mas a despesa era. O desempenho de Barbosa tratando dos temas que escolhe é um refrigério. Já sua atitude diante de perguntas estranhas à sua agenda é antropologicamente bacharelesca.

 

Do Blog Jogo do Poder: A notícia a que se refere Gaspari é essa:

ESTADÃO: 2,2 MILHÕES EM PASSAGENS AÉREAS NO STF

Curiosidades sobre o custo da democracia. O Estadão vem com notícia dando conta que em 2010 o Supremo Tribunal Federal editou um ato que permite o pagamento de passagens aéreas a parentes dos ministros e que de 2009 a 2012 foram gastos 2,2 milhões de reais, sendo que 1,5 milhões em vôos internacionais. O ato assegura viagens em assentos de primeira classe. Segundo o Estadão, aconteceram viagens no período de férias forenses, sem oferecer maiores dados sobre esse ponto.

 

JOAQUIM BARBOSA, POR JÂNIO DE FREITAS: O RISCO DO AVANÇO


O risco do avanço
Jânio de Freitas na Folha hoje (11.04.13)

O risco é grande e, pior ainda, crescente. O que pode suceder quando um alvejado por agressões orais do presidente do Supremo Tribunal Federal usar o direito de reagir à altura, como é provável que acabe acontecendo? Em qualquer caso, estará criado um embaraço extremo. Não se está distante nem da possibilidade de uma crise com ingredientes institucionais, caso o ministro Joaquim Barbosa progrida nas investidas desmoralizantes que atingem o Congresso e os magistrados.
O fundo de moralismo ao gosto da classe média assegura às exorbitâncias conceituais e verbais do ministro a tolerância, nos meios de comunicação, do tipo “ele diz a coisa certa do modo errado” –o que é um modo moralmente errado de tratar a coisa errada. Não é novidade como método, nem como lugar onde é aplicado.
Nem por isso o sentido dos atos é mudado. “Só se dirija a mim se eu pedir!” é uma frase possível nas delegacias de polícia. Dita a um representante eleito da magistratura, no Supremo Tribunal Federal, por seu presidente, é, no mínimo, uma manifestação despótica, sugestiva de sentimento ou pretensão idem. Se, tal como suas similares anteriores, levou apenas a mais uma nota insossa dos alvejados, não faz esperar que seja assim em reedições futuras desses incidentes.
Afinal, quem quer viver em democracia tem o dever de repelir toda manifestação de autoritarismo, arbitrariedade e prepotência. É o único dever que o Estado de Direito cobra e dele não abre mão.

Daniel Marenco/Folhapress

Janio de Freitas, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha, é um dos mais importantes jornalistas brasileiros. Analisa com perspicácia e ousadia as questões políticas e econômicas. Escreve na versão impressa do caderno “Poder” aos domingos, terças e quintas-feiras.