DILMA CAI, MAS SEGUE NA FRENTE E AÉCIO EMPACA. FALTA OPOSIÇÃO.

Pesquisas de opinião com distância demais de ano da eleição costuma ser apenas fetiche de marqueteiro e de analista político. A Folha trouxe o primeiro levantamento após as manifestações. Os resultados ainda não dão rumo definitivo no cenário.

 

A primeira pesquisa após o tsunami da classe média nas ruas tem número para todo gosto. A pressa segue sendo inimiga de quem quer extrair soluções e rumos para hoje.

O primeiro aspecto a observar é que a pesquisa revela apenas parcialmente os efeitos das manifestações na medida em que os governadores e prefeitos mais diretamente atingidos pelas manifestações não foram avaliados e não parece razoável imaginar que também não vão sofrer com desgaste de imagem, queda na intenção de votos e da popularidade.

Também faltou ao levantamento medir a situação do Congresso Nacional, da classe política, sobre o modo atual de fazer política e sobre a pauta dos políticos do legislativo.

Essas omissões tornam difícil uma boa análise e também a construção de uma boa argumentação sobre todos os desdobramentos das manifestações.

É fato que Dilma se desgastou, mas até que todo o movimento seja inteiramente decantado será muito difícil, senão impossível, produzir uma leitura de todos os efeitos produzidos pelas manifestações.

Com mais tempo Dilma também poderá distribuir bastante desse seu desgaste e material para isso ela tem de sobra: o transporte coletivo municipal é responsabilidade dos prefeitos (são eles que fazem o estudo de viabilidade econômica/financeira, licitam e assinam os contratos); SUS é do Governador e está municipalizado na grande maioria dos grandes centros (portanto, a falta de postos de saúde ou a má-qualidade dos serviços prestados é responsabilidade dos prefeitos e governadores, sendo que 50% dos entrevistados apontam esse como o maior problema do país); a Copa do Mundo terá 12 sedes no Brasil, 4 a mais do que nas outras Copas (ou seja, 4 estádios a mais), e a razão disso foi a pressão dos prefeitos e governadores quando Dilma ainda nem era Presidenta, portanto, não se pode atribuir a ela exclusivamente os gastos com a Copa; o ensino de Primeiro Grau é responsabilidade dos prefeitos e do segundo grau dos governadores, sendo que ai Dilma entra como coadjuvante; a segurança pública é responsabilidade dos governadores e ai Dilma entra como coadjuvante, sendo que se trata de uma área em que o Governo Federal tem programas para ajudar.

O calor e a irracionalidade das ruas não permite diferenciar as coisas, mas é fato que o tempo levará o eleitor a pensar em todos os fatores que lhe afligem e identificar as responsabilidades.

Assim, com um pouco de tempo, Dilma poderá desenvolver a argumentação necessária para fazer a bronca decantar nas direções certas, ficando para ela a questão da inflação e do emprego, qeu também não é pouco.

Dilma deu ao Congresso e aos políticos material suficiente para se ocuparem por um bom tempo: a reforma política e os plebiscitos.

Até o início das manifestações a pauta do Congresso parecia a de um país escandinavo, onde não há problemas sociais a resolver: casamento gay; crise da eleição de Feliciano na presidência da CDH da Câmara (aliás, legítima e seria respeitada em qualquer parlamento democrático); estatuto do nascituro; adoção gay; PEC para saber se quem investiga crime é delegado ou promotor; PEC para o Congresso ter o direito de validar ou não Súmula Vinculante do STF; mandato para membros do STF; criação de TRFs; regra para tornar emendas impositivas; regra para impedir criação de novos partidos; briga da distribuição de royalties de petróleo entre os estados …

Temas que tratam de direitos fundamentos e assuntos federativos. Mas, afinal, como exigir que o cidadão que se acotovela nos ônibus lotados todos os dias para ir e voltar do trabalho, que se irrita sendo maltratado na fila dos postos de saúde, que não consegue vaga nas creches, que está vendo o seu salário comprar menos, que está cotidianamente ameaçado pela violência urbana, compreenda a importância dessas questões no seu dia a dia. São temas importantes, mas é um erro transforma-los nos grandes protagonistas da agenda do Congresso. E o pior é que esses temas não encontram consenso nem dentro das bancadas dos partidos, de modo que tudo fica parecendo uma geléia geral, com os parlamentares alterando o alinhamento a todo momento e independente de orientação partidária.

Enquanto isso, o Plano Nacional de Educação (PNE) que destina 10% do PIB (uma revolução, a verdadeira revolução) para a educação de arrasta lentamente no Congresso e para votar uma medida que produziria mudanças nos portos o Congresso ficou paralizado, transmitindo a imagem de ser incapaz de produzir consenso sobre um temas muito importantes.

O PT vem navegando a todo vapor desde que Lula assumiu a presidência muito em razão da inexistência de forças na oposição com cérebro e em condições de se colocar como alternativa, pelo menos o eleitor não tem levado muito à sério as que se apresentam.

A esse respeito as pesquisas trazem um dado eloqüente que é o fato de Aécio perder para Marina em todos os cenários. Esse elemento indica o quanto está depalperada a oposição que é contra o PT e que efetivamente poderia derrota-lo. As declarações que as principais lideranças desse setor da oposição estão vociferando indica desorientação. De Aloysio Nunes a Agripino Maia, o discurso vem com  idéia de que o governo “está sem rumo e encurralado”. É como se essa oposição tivesse ficado imune aos efeitos das manifestações. Se é assim, qual a razão de Aécio não crescer sobre o desgaste de Dilma? As palavras de Agripino também não se aplicam a oposição? O gramático é que a oposição tende a assumir um discurso frágil em relação ao plebiscito e aí é que vai chamar para si toda a bronca das ruas. A população é a favor e quer o plebiscito porque entende que isso vai lhe dar oportunidade de participar. Se a oposição ficar contra isso com o argumento que trata-se de um golpe do PT para impor suas propostas de reforma política, vai sofrer imensamente. Nesse aspecto, a estratégia de Dilma está mais que correta. Se a reforma política é uma questão técnica que deveria ser revolvida por juristas e pelo Congresso Nacional, é argumento que fica bem na boca de ilustres constitucionalistas.

A nota a ser realçada é a da pontuação de Marina Silva. Mas ela tem um dilema: falta-lhe partido, energia, exército. Para ter tudo isso terá que assumir mais compromissos, além dos que já tem, como Lula teve que fazer. Enquanto não os assumir é difícil consolidar uma posição que lhe dê o protagonismo que um vencedor tem que ter.

Afinal, qual é o projeto de Brasil da oposição a Dilma? Se existe, ainda não chegou ao povo e é essa razão que faz com que Dilma siga com todas as condições de virar o jogo.

Assim, dizer que Dilma está com a reeleição comprometida ou perdida, como estão a fazer alguns analistas, parece ser mais torcida, desejo e vontade, que realidade. O que Dilma perdeu foi um imenso espaço que tinha para errar. Vai ter que ter muito mais concentração e dar passos certos. Os erros daqui para frente serão mais doloridos. Mas ela ainda está na ponta e tem todas as condições de se reeleger e, goste ou não, um dos fatores que colaboram para isso e a falta de alternativas na oposição.