MOVIMENTO SEM LENÇO, SEM DOCUMENTO, SEM OBJETIVO E CARA

 

Desde que as manifestações de rua começaram, e que eclodiram mais fortemente hoje, o que se mostrou mais perceptível é a forte presença de grandes contingentes de jovens de classe média na busca de apropriar-se do medo da população com a volta da inflação, do medo da volta do desemprego, da insatisfação com um sistema de transporte urbano que castiga diariamente a população que dele se utiliza, mais marcadamente o trabalhador que faz uso nos horários de pico e é maltratado com as super-lotações – traço comum de todo o sistema de norte a sul -, sentimentos que, de alguma maneira, foram aflorados nos últimos dias em razão de uma sucessão de notícias ruins – a mídia repicando diariamente o crescimento do PIB de 0,6%, inflação renitente acima da meta e a ameaça da sua volta como em tempos passados – que a maioria desses jovens não experimentaram -, ameaça de desemprego – embora tenhamos pleno emprego na maioria dos grandes centros – , o episódio do preço do tomate, denúncias de super-faturamento em diversas obras da Copa, agência internacional ameaçando baixar a nota do Brasil, reajuste generalizado dos preços das tarifas do transporte coletivo ruim, boato sobre o fim do bolsa família, o velho e cansativo problema da corrupção e, além dessas e de tantas outras coisas, a insensibilidade da elite política que teima em não se dar o respeito e mantém suas regalias como se nata estivesse acontecendo -.

É fato que até agora as pessoas estão indo para as ruas sem uma liderança certa, sem saber bem qual é a bandeira, pois os gritos de ordem que pegaram carona no movimento vão da denúncia da corrupção até o protesto contra o projeto dos direitos do nascituro, passando pelos gastos com a Copa, passe livre, condenação da PEC37, liberdade de manifestação, gritos contra a polícia, a saúde ruim, a educação ruim, com uma verbalização do tipo “tá tudo ruim, não temos nada”, é contra tudo e contra todos (nenhum palácio está à salvo, sem exceção), uma esquisitice total.

É uma marcha sem objetivo claro, com os manifestantes segurando cartazes feitos improviso e com uma pauta totalmente difusa, disforme e sem rumo.

Os partidos de esquerda, embora estejam se esforçando, não conseguem assumir o comando e dar o rumo, de tal modo que o movimento segue sem uma cara definida.

No meio das manifestações os provocadores vão chamando a polícia para o embate e essa estratégia chegou a dar certo num dado momento em que a força caiu no jogo e tornou tudo muito pior do que deveria ser, uma das conseqüências da incompreensão das autoridades sobre o que é o movimento e como lidar com ele.

Ir até aos palácios e tentar a sua ocupação tornou-se um impulso do movimento – tal como se viu no Rio, São Paulo, Curitiba -, mesmo sem ter ao certo o que fazer depois. É como o cachorro que corre atrás do pneu. Não há desemprego, não há inflação desenfreada. Há liberdade de expressão, de manifestação de pensamento, de organização, num grau nunca antes visto no Brasil. Então, para onde vai esse movimento?

Estamos num Estado de Direito e dando passos para um Estado Constitucional de Direito a duras penas e seria muito bom se a energia desse movimento todo pudesse contribuir para atingir esse objetivo com um pensamento consistente e com propostas que contribuíssem para concretizar o nosso programa constitucional, cuja tarefa fundamental é a igualdade e a solidariedade, com o objetivo fundamental de erradicar a miséria.

Tal como as coisas estão indo, arrisco dizer que a persistir essa falta de rumo, de bandeiras claras, de lideranças definidas, o movimento vai gerar mais frustração de quem entrou nele esperando algum resultado. Vamos ver.

 

Antonio Prata escreveu na Folha algo que parece com o que eu sentia quanto postei esse texto. Veja a análise de Prata.

19/06/2013 – 03h00

A passeata

Tinha punk de moicano e playboy de mocassim. Patricinha de olho azul e rasta de olho vermelho. Tinha uns barbudos do PCO exigindo que se reestatize o que foi privatizado e engomados a la Tea Party sonhando com a privatização de todo o resto. Tinha quem realmente se estrepa com esses 20 centavos e neguinho que não rela a barriga numa catraca de ônibus desde os tempos da CMTC. (Neguinho, no caso, era eu). Tinha a esperança de que este seja um momento importante na história do país e a suspeita de que talvez o gás da indignação, nas próximas semanas, vá para o vinagre.

Sejamos francos, companheiros: ninguém tá entendendo nada. Nem a imprensa nem os políticos nem os manifestantes, muito menos este que vos escreve e vem, humilde ou pretensiosamente, expor sua perplexidade e ignorância.

Anteontem, depois da passeata, assisti ao “Roda Viva” com Nina Capello e Lucas Monteiro de Oliveira, integrantes do Movimento Passe Livre. Ficou claro que, embora inteligentes e bem articulados, eles tampouco compreendem onde é que foram amarrar seus burros. “Vocês começaram com uma canoa e tão aí com uma arca de Noé”, observou o coronel José Vicente. Os dois insistiram que não, o que há é um canoão, e as mais de 200 mil pessoas que saíram às ruas no Brasil, segunda-feira, lutavam por transporte público mais barato e eficiente. A posição dos ativistas de não se colocarem como os catalisadores de todas as angústias nacionais e seguirem batendo na tecla do transporte só os enobrece –mas estarão certos na percepção?

Duzentas mil pessoas de esquerda, de direita, de Nike e de coturno por causa da tarifa?

“Por que você tá aqui no protesto?”, perguntou a repórter do “TV Folha” a uma garota na manifestação do dia 11: “Olha, eu não consigo imaginar uma razão para não estar aqui, na verdade”, foi sua resposta. Corrupção, impunidade, a PEC 37, o aumento dos homicídios, os gastos com os estádios para a Copa, nosso IDH, a qualidade das escolas e hospitais públicos são todos excelentes motivos para que se saia às ruas e se tente melhorar o país –mas já o eram duas semanas atrás: por que não havia passeatas? Será porque a chegada do PT ao poder anestesiou os movimentos sociais, dificultando a percepção de que o Brasil vem melhorando, melhorando, melhorando e… continua péssimo? Ou será porque agora o Facebook e o Twitter facilitam a comunicação?

Se as dúvidas sobre as motivações –que brotam do solo minimamente sondável do presente– já são grandes, o que dizer sobre o futuro do movimento? Marchará ou murchará? Caso cresça: conseguirá abaixar a tarifa? E, no longo prazo, terá alguma relevância? Mais ainda: adianta ir às ruas, fazer barulho? Ou a própria passeata extingue o impulso de revolta que a criou e voltamos todos para o mundinho idêntico de todos os dias, com a sensação apaziguadora de que “fiz a minha parte”?

Não tenho a menor ideia, estou mais confuso que o Datena diante da enquete, mas num país injusto como o nosso, em que a única certeza parecia ser a de que, aconteça o que acontecer, o Sarney estará sempre no poder, as dúvidas dos últimos dias são muitíssimo bem-vindas.

antonio prataAntonio Prata é escritor. Publicou livros de contos e crônicas, entre eles “Meio Intelectual, Meio de Esquerda” (editora 34). Escreve às quartas na versão impressa de “Cotidiano”.