O PT DE ONTEM E O DE HOJE

Tem sido recorrente na análise de gente da esquerda em geral a utilização do argumento de que o PT está hoje envolvido com parceiros e práticas que ontem condenou e tudo em troca da chamada governabilidade, circunstância que, se assegura base para que o partido possa viabilizar sua permanência no governo, paradoxalmente, também torna-se o obstáculo para que possa implementar o seu ideário histórico.

Na fala da Presidenta Dilma nesta sexta-feira esse aspecto apareceu, ainda que discretamente, quando referiu que o ruído que está vindo das ruas clama por mudanças numa velocidade que não tem sido possível na esfera política.

Quem denuncia esse drama do PT em sua análise está certo, pois é fato que o partido teve que conceder muito para eleger Lula – e a presença de José de Alencar como seu vice é a face mais visível desse processo que estampa a aliança do PT com parte das elites – e depois concedeu mais ainda para ajustar a governabilidade e o resultado é sabido e desnecessário enumerar aqui.

O objetivo aqui é mostrar que esse problema não é só do PT e não é a primeira fez na história que isso acontece. Max Weber lembra que ao ler o Statuto Della Parte Guelfa é possível extrair que esse fenômeno já acontecia com os partidos das cidades medievais – os guelfos e os gibelinos -, na Inglaterra do século 19 – “cada mudança de um peer, seja qual for o motivo, todos que dele dependiam passavam também para o partido oposto” – e também depois se repetiu na organização bolchevique na Rússia quando “tiveram que aceitar de volta todas as coisas combatidas por eles como instituições da classe burguesa, para manter em funcionamento o Estado e a economia, e ainda por cima voltaram a recorrer aos agentes da antiga Ocrana como instrumento principal de seu poder estatal” (Economia e Sociedade).

Na nossa política esse fenômeno acontece desde sempre e mais recentemente vimos que o PSDB se criou a partir da dura condenação das práticas existentes dentro do PMDB, mas quando no governo o PSDB se deu conta que a aliança com o PMDB, com tudo que ele tinha de ruim, era inevitável para ajustar a governabilidade.

Assim, o fenômeno do PT estar acompanhado de setores da sociedade que antes combateu não é uma tragédia em si. O que pode ser deletério é renunciar aos postulados principais e hegemônicos de um partido social democrata de esquerda, que o sempre caracterizou. Creio que, sob tal aspecto, o ruído das ruas possa ajudar o PT a promover um freio de arrumação e revigorar sua estampa social democrata de esquerda de maneira mais transparente e aberta, de modo a sinalizar que são os seus parceiros que devem se adaptar a isso. O PT, por seu turno, lógico, no plano da operação política, terá que fazer suas concessões e o importante é que o faça de modo bem transparente para que isso possa ser compreendido pela sociedade.

A sociedade sabe que esse tipo de prática é um elemento inerente ao processo político e o que eventualmente exige é que seja feito de modo transparente, caso contrário desemboca nos mensalões da vida.