SAIU A RESENHA DAS REVISTAS VEJA, ISTOÉ, ÉPOCA E CARTA CAPITAL

Rebeldes sem causa ? Ou sobram causas mas faltam rebeldes competentes ? Seja lá o que for, o Brasil é pródigo em fornecer matéria prima para nos indignarmos. Corrupção, violência, aumentos disso ou daquilo … enfim … faltariam dias no ano para a população ir as ruas protestar, tamanha a lista de injustiças do pais tupiniquim! Veja embarcou na onda da bagunça e dedicou a capa a mobilização dos jovens pequenos burgueses da classe média em São Paulo e outras poucas capitais. Reportagem foca no perfil dos manifestantes, que, segundo a revista, são jovens de classe media e alta com acesso as universidades públicas renomadas, não são beneficiários do bolsa família e não se espremem nas “bumbas” cheias na madrugada e no fim do dia, para ir e voltar do trabalho, pois usufruem dos seus carros nas horas de aperto e aos finais de semana. Incrível, as elites atirando no próprio pé? A periódica perdeu a oportunidade de mostrar o drama dos cidadãos que acabaram prejudicados pela massa revoltada. A Ralé. Os outros das elites que perderam horas no trânsito impedido e os que tiveram compromissos relevantes – como consultas ou cirurgias médicas – adiados e cancelados, só para citar dois exemplos dessa classe, e a ralé que se arrebentou para chegar no trabalho, quando conseguiu. Por falar em confusão, a edição de Veja dessa semana aborda dois temas com uma certa desordem editorial. Em um deles, diz que o Papa Francisco esta de olho no lobby gay fincado na própria casa. O Papa latino considera a possibilidade de agir com rigor para diminuir a onda de relações homossexuais dentro e fora do Vaticano, como se isso fosse algo inédito e atual. Em outra matéria controversa, a revista cita que o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, foi recentemente perseguido por agentes federais que se infiltraram no Porto de Suape, no Recife, para farejar possíveis irregularidades e, assim, denegrir a imagem de Campos e estancar sua candidatura a Presidência. Os quatro agentes, de acordo com Veja, foram presos pela PM pernambucana e estariam em campo a serviço do gabinete da rainha Dilma. Talvez um delírio da número um das semanais.

As diferentes abordagens sobre um mesmo tema são o mais fiel medidor da linha editorial dos veículos de comunicação. Tome-se o exemplo das semanais: enquanto Veja instiga os manifestantes pelo país a combater a corrupção (ou simplesmente o PT, na visão turva da Abril), Época faz leitura pretensamente mais neutra, tentando decifrar o caleidoscópio difuso de insatisfações levado às ruas de São Paulo e outras capitais, e publicando editorial com o autoexplicativo título “Nem baderna nem truculência”. A IstoÉ, por sua vez, ataca de forma mais incisiva a PM paulista e sua repressão desmedidamente violenta, ao mesmo tempo em que a maior cidade do País padece com crescentes índices de criminalidade. Tudo muito natural. No mais, Época faz um longo e benevolente perfil do prefeito carioca Eduardo Paes (não é o primeiro afago), e a coluna de Felipe Patury diz que Lula ameaça reservadamente disputar a presidência em 2018 – seria uma represália a Eduardo Campos caso o pernambucano se candidate já em 2014, visando ganhar força para daqui a quatro anos. A revista relata ainda as novidades tecnológicas das transmissões para a Copa das Confederações, com destaque para o campo virtual, no qual o telespectador terá a noção exata da visão do jogador em determinado lance; e traz ainda (com chamada na capa e tudo) bombástica e imperdível entrevista com um chef catalão que faz revelação estarrecedora: come de tudo, exceto pimentão. Desde então, o mundo não é mais o mesmo.

Ja Istoé, além da capa sobre os protestos, conta que Carlinhos Cachoeira, mesmo condenado a 40 anos de xadrez, continua comandando a banca nos arredores de Brasília, para deleite de Andressa, a musa da contravenção. Outra reportagem desvenda os procedimentos da justiça mineira que, curiosamente, tem favorecido a defesa do mensalão do PSDB. E seguindo o já habitual resgate da História, a IstoÉ publica uma matéria sobre o motorista de Kombi que poupou a vida do ex-marido de Dilma na ditadura, e outra com a releitura da 2ª Guerra promovida após a localização de escritos do pensador nazista que influenciou Hitler. Por sinal, de algumas semanas para cá o patinho feio entre as semanais tem surpreendido com pautas interessantes e matérias consistentes. Mas seguem faltando articulistas de peso e colunistas com maior credibilidade que Ricardo Boechat.

Carta Capital vem com o tema da semana na área internacional. Obama foi flagrado pela notícia de que os EUA bisbilhotam o mundo inteiro, com o título: Sorria, você está sendo espionado. Mas a revista gosta de se iludir e sustenta que “O risco não está só nos governos. As gigantes da internet cada vez mais controlam a sua vida”. Quem controla as gigantes Carta? Deus? Então, lá vai a Carta dizendo que Whasington vigia o mundo porque permitimos que os gigantes da internet façam o mesmo. No mais, vamos naquela conversa de que, de olho em 2014, empresas apostam na Copa das Confederações. No tema dos poderes de investigação do Ministério Público a revista cai na ladainha do senso comum chamando a PEC 33 de a PEC do enforcamento, sustentando que restringir o poder de investigação do Ministério Público viola o sistema constitucional do País e cria uma “reserva de mercado” para as polícias judiciárias, algo comum apenas nas ditaduras. Se a revista queria fazer uma análise séria da questão deveria responder a pergunta que não quer calar: o nosso sistema constitucional admite um modelo de investigação fora do âmbito da polícia que é seletivo, em que o investigador escolhe os crimes que quer investigar? A idéia pode ser ideologicamente simpática (vamos meter na cadeia a elite que oprime e rouba o país desde o descobrimento), mas institucionalmente é boa? A matéria peca pela superficialidade ao não ir fundo no modelo de investigação inquisitorial, medieval, que massacra os pobres brasileiros de norte a sul todos os dias nas nossas cadeias públicas. Perdeu a oportunidade. Para não dizer que tudo está perdido a revista tem uma boa matéria sobre os estereótipos nacionais que, segundo ela, são inconsistentes. Novos são os povos da Europa e a distribuição de renda no Brasil. Velhas, a prosopopéia classista da elite brasileira e a política neoliberal alemã.

Continuemos a nossa marcha em busca do pão de cada dia ! Cada um com a sua causa !!! Abs.