A MÍDIA NÃO ENTENDEU OU NÃO QUIS ENTENDER O PAPA FRANCISCO?

 

Encerrou no final da tarde deste domingo a visita do Papa Francisco ao Brasil, um evento exuberante que reuniu nas cidades do Rio de Janeiro e Aparecida milhões de pessoas e ainda tomou a atenção de muitos mais milhões de brasileiros e de gente do mundo todo que, através dos meios eletrônicos, acompanharam as atividades de Francisco na sua passagem pelo Brasil. 

Confesso o meu pouco apego a esse mundo clerical, mas também que não tem como não olhar para uma figura tão mobilizadora como a de um Papa que está em total lua de mel com a sua função e com toda a gente crente do mundo todo, inda mais sendo ele Argentino. 

Desde que Leão XIII subscreveu a Carta Encíclica Rerum Novarum convocando a atenção de todos para a “CONDIÇÃO DOS OPERÁRIOS”, uma opção pelos pobres, a Igreja Católica vem produzindo avanços e recuos nesse tema. Aqui ou ali se vê avanço e retrocesso. João Paulo avançou e trouxe esperanças, mas logo a Igreja voltou a perder-se nos seus próprios problemas. Francisco retoma agora o mesmo caminho, com uma energia incomum nas figuras dos velhos e cansados papas que conhecemos, muitas vezes mais ocupados com a defesa dos dogmas da Igreja que com a condição dos milhões de excluídos mundo afora. 

Sem se perder em devaneios se as intenções do Papa vão ou não se concretizar dentro da igreja, sua vinda ao Brasil não deveria ser um momento de reflexão sobre o que o país tem feito para a erradicação da miséria, sobretudo estando o tema exatamente no centro da sua agenda? 

“Nenhum esforço de ‘pacificação’ será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem, que abandona na periferia parte de si mesma. Uma sociedade assim simplesmente empobrece a si mesma”, disse Francisco. Bingo!!! 

O Papa apontou o caminho e os objetivos da sua doutrina: os pobres. E convocou os jovens para essa tarefa. 

A mídia teve uma boa oportunidade de olhar para o Brasil e ver o que se tem feito pelos pobres por aqui. 

Estamos em um país que desde 1930 até 1980 tornou-se a oitava maior economia do mundo e ao mesmo tempo criou um dos maiores contingentes de miseráveis do mundo, ou seja, enriqueceram as elites e empobreceram os pobres. Mas como o Brasil tornou-se a oitava maior economia do mundo e esse exuberante desenvolvimento não resolveu o problema da miséria? Geramos emprego, a indústria e a agricultura cresceram, fizemos o Mobral e expandimos a rede de ensino e a miséria aumentou? Como ? 

Quando a Presidente Dilma, de Chefe de Estado para Chefe de Estado (dimensão que parece ter sido totalmente esquecida na visita do Papa), discursou na recepção ao novo Papa e ressaltando os feitos do país na área social nos últimos anos, o que mais se ouviu, viu e leu na mídia, como numa grande orquestração, foi que a Presidenta havia passado do ponto, foi inconveniente, buscou se aproveitar da presença do Papa para vender o peixe do PT e assim foi se enterrando a oportunidade de se olhar para o lugar que o Papa quer que todos olhem: os pobres. Ainda que Dilma tivesse a intenção de faturar com o evento – mas não quero me perder na partidarização que a questão suscita -, é fato que o tema da erradicação da miséria estava na agenda do visitante.

Em ocasião recente, vimos o mesmo desvio na divulgação dos resultados do Bolsa Família, que também ofereceu oportunidade para essa mesma reflexão. Na ocasião a Folha de S. Paulo registrou: “Renda cresce, mas miséria social persiste” (A8 Poder, 27.05.13). No texto da matéria está dito que ”O governo Dilma Rousseff melhorou a renda dos pobres, mas não solucionou os seus níveis miseráveis de acesso a emprego e educação. É o que revela um  indicador criado pelo próprio Governo Federal para analisar a pobreza no país, cuja base de dados de dezembro de 2012 a Folha obteve por meio da Lei de Acesso à Informação”. 

Esse foi o tom de João Carlos Magalhães e Breno Costa, na matéria da Folha, de Alexandre Garcia, em seu comentário na Rede Globo, e que se repetiu por quase todos da mídia que se lançaram na leitura dos números do IDF. 

É uma espécie de senso comum quando se trata de falar da pobreza no Brasil. Realçar a velha cantilena de que “dar dinheiro não resolve”, ou, “tem que ensinar a pescar ao invés de dar o peixe”, logo, tem que dar é educação e emprego porque a “esmola do Bolsa Família” não resolverá o problema e, portanto, o programa não merece continuar porque não vai acabar com a miséria. 

O que mais se faz no Brasil é sempre interditar o debate sobre a nossa principal tragédia: um contingente de excluídos que eqüivale a 1/3 da nossa população e quais são as soluções para enfrentar a superação desse problema. 

Com honrosas exceções, a mídia se perdeu no lugar comum da mediocridade dos temas periféricos, na novelização ridícula de temas menores, deu destaque a manifestações minúsculas diante dos contingentes que os eventos do Papa reuniu e para as falhas da organização. 

Nesse aspecto, Jessé de Souza parece ser uma voz solitária quando diz que a percepção da Ralé “enquanto classe” implica na “percepção radicalmente nova dos problemas centrais que desafiam o Brasil como sociedade, a começar pela desconstrução do ´fetiche` economicista como interpretação dominante e pela revelação dos interesses  por trás da transformação  da corrupção política no nosso suposto problema central” (Ralé Brasileira, Editora UFMG).

O Papa acabou de ir e ainda é tempo de recuperar a agenda que deixou para o Brasil.