ALCKMIM, CABRAL E CONGÊNERES TAMBÉM TOMAM O TOMBO DE DILMA

A divulgação da segunda rodada das pesquisas da Folha se São Paulo só confirmou a sensação que se teve quando saiu a primeira retratando o tombo de Dilma. Agora o jornal revela as quedas dos principais governadores Alckmin e Cabral. Cabral pelo menos tem o conforto de não ir à reeleição. Os demais governadores devem ter sofrido igual desgaste e isso pode explicar o fato de Eduardo Campo não ter ganho pontos na corrida presidencial. Os prefeitos das capitais também não foram poupados. Todos que estão no poder perderam prestígio, alguns mais ou outros menos, e isto revela um dado a ser levado em conta nas reflexões sofre as manifestações.

DILMA CAI, MAS SEGUE NA FRENTE E AÉCIO EMPACA. FALTA OPOSIÇÃO.

Pesquisas de opinião com distância demais de ano da eleição costuma ser apenas fetiche de marqueteiro e de analista político. A Folha trouxe o primeiro levantamento após as manifestações. Os resultados ainda não dão rumo definitivo no cenário.

 

A primeira pesquisa após o tsunami da classe média nas ruas tem número para todo gosto. A pressa segue sendo inimiga de quem quer extrair soluções e rumos para hoje.

O primeiro aspecto a observar é que a pesquisa revela apenas parcialmente os efeitos das manifestações na medida em que os governadores e prefeitos mais diretamente atingidos pelas manifestações não foram avaliados e não parece razoável imaginar que também não vão sofrer com desgaste de imagem, queda na intenção de votos e da popularidade.

Também faltou ao levantamento medir a situação do Congresso Nacional, da classe política, sobre o modo atual de fazer política e sobre a pauta dos políticos do legislativo.

Essas omissões tornam difícil uma boa análise e também a construção de uma boa argumentação sobre todos os desdobramentos das manifestações.

É fato que Dilma se desgastou, mas até que todo o movimento seja inteiramente decantado será muito difícil, senão impossível, produzir uma leitura de todos os efeitos produzidos pelas manifestações.

Com mais tempo Dilma também poderá distribuir bastante desse seu desgaste e material para isso ela tem de sobra: o transporte coletivo municipal é responsabilidade dos prefeitos (são eles que fazem o estudo de viabilidade econômica/financeira, licitam e assinam os contratos); SUS é do Governador e está municipalizado na grande maioria dos grandes centros (portanto, a falta de postos de saúde ou a má-qualidade dos serviços prestados é responsabilidade dos prefeitos e governadores, sendo que 50% dos entrevistados apontam esse como o maior problema do país); a Copa do Mundo terá 12 sedes no Brasil, 4 a mais do que nas outras Copas (ou seja, 4 estádios a mais), e a razão disso foi a pressão dos prefeitos e governadores quando Dilma ainda nem era Presidenta, portanto, não se pode atribuir a ela exclusivamente os gastos com a Copa; o ensino de Primeiro Grau é responsabilidade dos prefeitos e do segundo grau dos governadores, sendo que ai Dilma entra como coadjuvante; a segurança pública é responsabilidade dos governadores e ai Dilma entra como coadjuvante, sendo que se trata de uma área em que o Governo Federal tem programas para ajudar.

O calor e a irracionalidade das ruas não permite diferenciar as coisas, mas é fato que o tempo levará o eleitor a pensar em todos os fatores que lhe afligem e identificar as responsabilidades.

Assim, com um pouco de tempo, Dilma poderá desenvolver a argumentação necessária para fazer a bronca decantar nas direções certas, ficando para ela a questão da inflação e do emprego, qeu também não é pouco.

Dilma deu ao Congresso e aos políticos material suficiente para se ocuparem por um bom tempo: a reforma política e os plebiscitos.

Até o início das manifestações a pauta do Congresso parecia a de um país escandinavo, onde não há problemas sociais a resolver: casamento gay; crise da eleição de Feliciano na presidência da CDH da Câmara (aliás, legítima e seria respeitada em qualquer parlamento democrático); estatuto do nascituro; adoção gay; PEC para saber se quem investiga crime é delegado ou promotor; PEC para o Congresso ter o direito de validar ou não Súmula Vinculante do STF; mandato para membros do STF; criação de TRFs; regra para tornar emendas impositivas; regra para impedir criação de novos partidos; briga da distribuição de royalties de petróleo entre os estados …

Temas que tratam de direitos fundamentos e assuntos federativos. Mas, afinal, como exigir que o cidadão que se acotovela nos ônibus lotados todos os dias para ir e voltar do trabalho, que se irrita sendo maltratado na fila dos postos de saúde, que não consegue vaga nas creches, que está vendo o seu salário comprar menos, que está cotidianamente ameaçado pela violência urbana, compreenda a importância dessas questões no seu dia a dia. São temas importantes, mas é um erro transforma-los nos grandes protagonistas da agenda do Congresso. E o pior é que esses temas não encontram consenso nem dentro das bancadas dos partidos, de modo que tudo fica parecendo uma geléia geral, com os parlamentares alterando o alinhamento a todo momento e independente de orientação partidária.

Enquanto isso, o Plano Nacional de Educação (PNE) que destina 10% do PIB (uma revolução, a verdadeira revolução) para a educação de arrasta lentamente no Congresso e para votar uma medida que produziria mudanças nos portos o Congresso ficou paralizado, transmitindo a imagem de ser incapaz de produzir consenso sobre um temas muito importantes.

O PT vem navegando a todo vapor desde que Lula assumiu a presidência muito em razão da inexistência de forças na oposição com cérebro e em condições de se colocar como alternativa, pelo menos o eleitor não tem levado muito à sério as que se apresentam.

A esse respeito as pesquisas trazem um dado eloqüente que é o fato de Aécio perder para Marina em todos os cenários. Esse elemento indica o quanto está depalperada a oposição que é contra o PT e que efetivamente poderia derrota-lo. As declarações que as principais lideranças desse setor da oposição estão vociferando indica desorientação. De Aloysio Nunes a Agripino Maia, o discurso vem com  idéia de que o governo “está sem rumo e encurralado”. É como se essa oposição tivesse ficado imune aos efeitos das manifestações. Se é assim, qual a razão de Aécio não crescer sobre o desgaste de Dilma? As palavras de Agripino também não se aplicam a oposição? O gramático é que a oposição tende a assumir um discurso frágil em relação ao plebiscito e aí é que vai chamar para si toda a bronca das ruas. A população é a favor e quer o plebiscito porque entende que isso vai lhe dar oportunidade de participar. Se a oposição ficar contra isso com o argumento que trata-se de um golpe do PT para impor suas propostas de reforma política, vai sofrer imensamente. Nesse aspecto, a estratégia de Dilma está mais que correta. Se a reforma política é uma questão técnica que deveria ser revolvida por juristas e pelo Congresso Nacional, é argumento que fica bem na boca de ilustres constitucionalistas.

A nota a ser realçada é a da pontuação de Marina Silva. Mas ela tem um dilema: falta-lhe partido, energia, exército. Para ter tudo isso terá que assumir mais compromissos, além dos que já tem, como Lula teve que fazer. Enquanto não os assumir é difícil consolidar uma posição que lhe dê o protagonismo que um vencedor tem que ter.

Afinal, qual é o projeto de Brasil da oposição a Dilma? Se existe, ainda não chegou ao povo e é essa razão que faz com que Dilma siga com todas as condições de virar o jogo.

Assim, dizer que Dilma está com a reeleição comprometida ou perdida, como estão a fazer alguns analistas, parece ser mais torcida, desejo e vontade, que realidade. O que Dilma perdeu foi um imenso espaço que tinha para errar. Vai ter que ter muito mais concentração e dar passos certos. Os erros daqui para frente serão mais doloridos. Mas ela ainda está na ponta e tem todas as condições de se reeleger e, goste ou não, um dos fatores que colaboram para isso e a falta de alternativas na oposição.