A MEDICINA BRASILEIRA É MELHOR QUE A CUBANA? QUAL A DIFERENÇA?

Visão equilibrada e técnica da medicina cubana de Jorge Pontual na Globo http://t.co/Sl402hOvu4

Pontual reforma a idéia de que comparar a medicina cubana com a brasileira sem estabelecer os limites prévios que a argumentação deve ter, tal como se tem feito, só se presta a produzir resultado falso.

 

Para entender as diferenças é preciso referir que no final da década de 1970, para enfrentar o modelo privatista de saúde que se desenvolveu no Brasil a partir da década de 40, diversos segmentos da sociedade civil iniciaram um movimento que lutou pela ‘atenção à saúde’ como um direito de todos e um dever do Estado (a Reforma Sanitária Brasileira e culminou na instituição do SUS por meio da Constituição de 1988 e posteriormente regulamentado pelas Leis 8.080/90 e 8.142/90, chamadas Leis Orgânicas da Saúde: sob o seguinte lema: “Saúde é a resultante das condições de habitação, alimentação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso a serviços de saúde”).

A partir daí veio a chamada ‘atenção à saúde’ de forma hierarquizada, em níveis crescentes de complexidade, onde os serviços de saúde são classificados nos níveis primário, secundário e terciário de atenção, conforme o grau de complexidade tecnológica requerida aos procedimentos realizados.

Foi uma clara reação ao modelo privatista da saúde e que tinha como a especialização e a conseqüente desumanização do atendimento, o predomínio da tecnologia (Gustavo Corrêa MattaMárcia Valéria Guimarães Morosini, Fiocruz).

No mundo isso não foi novidade, pois várias tendências podem ser identificadas nessas concepções. Desde sua vinculação a uma reforma social e de estado, como aconteceu com a Medicina de Família e Comunidade de Cuba e na China, que propuseram os conhecidos médicos de pés descalços, até a proposição dos países industrializados de Saúde Comunitária, passando necessariamente pelo Family Practice da reforma do sistema de saúde da Inglaterra do pós-guerra, que é considerado um modelo de acesso universal adotado por muitos outros países.

No Brasil, foi reconhecida pelo Ministério da Educação, por intermédio da Comissão Nacional de Residência Médica em 1981, com o nome de Medicina Geral Comunitária. Mas, desde 1976, tinha programas de formação específica em Porto Alegre (Murialdo), Rio de Janeiro (UERJ) e Recife (UFPE). Em 2002 ganha nova nomenclatura por intermédio de uma resolução conjunta do Conselho Federal de Medicina, Associação Médica Brasileira e Comissão Nacional de Residência Médica em proposta da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) apesar da resistência corporativista de algumas áreas.

O médico de família e comunidade é, por excelência, um médico de Atenção Primária à Saúde, ou seja, deve ter um vínculo com seus pacientes antes mesmo deles adoecerem, e quando esses sentirem algo deve ser o primeiro médico a ser consultado. Dessa forma, nessa especialidade os médicos estão em uma posição privilegiada para fazer promoção de saúdeprevenção de doençasdiagnóstico precoce, e mesmo o tratamento de doenças que façam parte de sua capacidade clínica — na MFC não existe dicotomia entre prevenção e cura. A visita domiciliar (ou domiciliária) é parte importante da semiologia para os médicos de família e comunidade, mas as consultas são realizadas prioritariamente no consultório médico, a não ser em contextos específicos como o dos pacientes acamados. Outro recurso importante é o conhecimento da comunidade em que paciente habita, o que engloba desde infra-estrutura até valores culturais; esse aspecto é mais importante na Estratégia Saúde da Família (conhecido até 2005 como Programa de Saúde da Família ou PSF).

Várias tendências podem ser identificadas nessas concepções. Desde sua vinculação a uma reforma social e de estado, como aconteceu com a Medicina de Família e Comunidade de Cuba e na China, que propuseram os conhecidos médicos de pés descalços, até a proposição dos países industrializados de Saúde Comunitária, passando necessariamente pelo Family Practice da reforma do sistema de saúde da Inglaterra do pós-guerra, que é considerado um modelo de acesso universal adotado por muitos outros países (Wikipedia).

Disso resulta que temos no Brasil níveis diferentes de medicina: saúde básica, medicina de baixa, média e alta complexidade.

Com qual dessas medicinas podemos comparar a medicina cubana?

O argumento de dizer que a medicina cubana é ruim revela que a ignorância sobre aquela medicina abunda entre nós. De que medicina estamos falando? Saúde básica, medicina de baixa, média ou alta complexidade?

Então, dizer que a medicina em Cuba é atrasada sem esclarecer o campo de argumentação é correr o risco de incidir em desonestidade intelectual.

É como dizer que o Brasil é atrasado em música porque não tem ópera. Não relativizar o tema só tem duas matizes: ignorância ou desonestidade intelectual e ideológica.

Me ocorre aqui o discurso de Boaventura de Souza Santos sobre o fato do modelo de racionalidade científica da ciência moderna ter mergulhado em profunda crise em razão da revolução científica que a humanidade passou a experimentar a partir de Einstein e da mecânica quântica, cujo final, segundo o autor no seu texto, ainda não é possível antever. Com a relativização do rigor das leis de Newton no domínio da microfísica, as leis da física são agora só probabilidades, de tal modo que mesmo seguindo à risca as regras da lógica matemática é possível formular proposições indecidíveis. Em vez da eternidade, a história; em vez do determinismo, a imprevisibilidade; em vez do mecanicismo, a interpenetração, a espontaneidade e a auto-organização; em vez da reversibilidade, a reversibilidade e a evolução; em vez da ordem, a desordem; em vez da necessidade, a criatividade e o acidente. Ou seja, retornamos a muitos dos conceitos aristotélicos e medievais pré-século XVI, mas não para retroceder e sim para avançar/voltar em direção ao conhecimento do senso comum (popular, rudimentar, prático), em direção ao humanismo.

Para Boaventura a ciência moderna produziu o “ignorante especializado”.

Guardadas as proporções, a lição se aplica bem aqui. De qual medicina estamos falando? Da saúde básica, da medicina de baixa, média ou alta complexidade?

No Brasil (não em todas regiões), como já vimos, medicina privada foi sendo dotada de alto grau de desenvolvimento tecnológico e arrastou a profissão para uma absurda dependência e veneração da máquina. Na área das especialidades de média e alta complexidade o movimento foi tão exuberante que o país tornou-se referência mundial em várias delas. As faculdades passaram a formar só especialistas. Muitos “ignorantes especialistas”. Conhecem bem o que a máquina pode fazer, operam bem a máquina, mas não sabem nada de humanismo e seu contato com o paciente não passe de poucos minutos, ou são grandes cirurgiões que vivem dentro dos centros cirúrgicos e consultórios sem qualquer contato com a realidade social dos seus pacientes.

Nesse plano, o “negócio” do médico é curar a doença, o paciente é apenas um detalhe. Pobre é apenas um número nessa equação, estatística para estudo ou para o faturamento na contabilidade (mas também impõe-se dizer que há serviços de alta complexidade no Brasil, públicos e também privados, que exercitam um serviço de acolhimento que foge à essa regra). O avanço tecnológico não é um mal em si, pois fez do país protagonista mundial em várias especialidades. É uma virtude e um mal. Esse não é o problema da saúde no Brasil e devemos continuar avançando nesse sentido, embora seja necessário mais humanismo no ensino e na prática diária dessas especialidades.

A medicina cubana não padece desse mal e nem dessa virtude. A alta complexidade cubana não tem a mesma expressão mundial que a brasileira, embora não se tenha notícia de dirigentes cubanos saindo da ilha para buscar assistência médica em locais mais desenvolvidos.

Mas Cuba é indiscutivelmente uma das mais brilhantes referência no mundo quando se fala em saúde básica e do seu médico clínico que lá não é visto e nem tratado com o preconceito que tratamos os nossos no Brasil.

Se em Cuba essa medicina primária é de excelência é fácil constatar que no Brasil se dá exatamente o inverso, basta freqüentar os nossos postos de saúde. É comum não encontrar médico, quer porque simplesmente o Poder Público não consegue contratar, quer porque o médico bate o ponto e desaparece (isso é extremamente freqüente), e as filas fazem parte de cotidiano.

Esse é o problema a ser enfrentado imediatamente e com absoluta prioridade pelo Poder Público.

É fato que no Brasil a figura do clínico geral, objeto de eterno preconceito na classe médica dos “ignorantes especializados” (obviamente não coloco a questão de modo generalizado, eis que seria uma burrice),  foi condenado ao desaparecimento. Um animal em extinção.

Lembro aqui uma história contada pelo maior reacionário que o Brasil teve, Nelson Rodrigues  – era reacionário maravilhoso porque dotado de inteligência, coisa incomum em reacionário -, sobre um goleiro do Fluminense, time pelo qual seria capaz de morrer, e que ajuda a entender o quanto é verdadeiro preconceito ao clínico a que me refiro.

Dizia ele que um certo torcedor não gostava do goleiro do time e em todo jogo o dito torcedor se postava atrás do gol e dirigia-se ao jogador xingando-o de “médico, médico, médico!!!”. Um belo dia de domingo, em mais um jogo, o goleiro tomou um frango maravilhoso. O torcedor que se dirigia ao goleiro chamando-o de “médico, médico, médico!!!” passou a gritar desesperadamente: “clínico, clínico, clínico!!!”.

Pois bem, é fato que as nossas faculdades da ciência moderna pararam de formar clínicos. Só formam especialistas. O clínico é o primo pobre da medicina brasileira. É fato. O que falta é clínico. Cuba, ao contrário, forma clínicos em quantidade para fornecer para o mundo. É uma política de governo, um programa governamental imenso. Ninguém é obrigado a gostar, mas odiar sem saber o que é já é burrice, ignorância. Saber o que é e criticar sem esclarecer é desonestidade intelectual, que não se perdoa nem em reacionário.

Submeter os médicos cubanos e de outros países que possuem uma formação médica mais humanista e menos tecnológica que a nossa aos mesmos processos de avaliação, que é o que fazem os burocratas do Ministério da Saúde e dos conselhos de medicina – a serviço da corporação médica brasileira -, é condena-los à reprovação sempre.

É isso ai e o resto é conversa ideológica radical, partidária e corporativa que caminham distante do interesse público – a assistência à saúde da ralé – e que não contribuem. Leia mais sobre o preconceito a que o texto se refere:

26.08.2013

YOANI SANCHEZ, ÁLVARO DIAS, OS POBRES, MÉDICOS CUBANOS E A MÁ-FÉ INSTITUCIONAL

Do R7

Senador do PSDB reproduziu suposta crítica de blogueira cubanaReprodução/Facebook

O senador Alvaro Dias (PSDB-PR) usou sua página no Facebook para criticar o programa Mais Médicos  utilizando uma suposta mensagem da blogueira cubana Yoani Sanchez onde ela critica o sistema de saúde do seu país, dizendo:

“A medicina cubana é uma das mais atrasadas do mundo. A maioria dos seus profissionais se formam sem nunca ter visto um aparelho de ultrassom,  sem ouvir falar em stent coronário e sem poder se atualizar pela internet”.

É bem provável que Yoani, que tem travado uma bela caminhada contra a ditadura cubana dentro e fora da ilha, tenha, de fato, dado a declaração e que seu conteúdo seja relativamente correto.

Como se extrai da declaração, no entanto, é que Yoani se refere ao fato dos estudantes de medicina em Cuba não terem acesso fácil a aparelhos de ultrassom, stents coronarianos e outros avanços tecnológicos largamente utilizados nas medicinas dos países mais avançados do ocidente.

A questão, então, é a que medicina Yoani está se referindo? Aparentemente a cubana gostaria que seu país formasse médicos como formamos no Brasil, especialistas para todas as áreas da medicina. O problema do nosso ensino médico é que ele não forma profissionais para a saúde básica na quantidade que o país precisa, o antigo clínico geral, figura em extinção no Brasil, cada vez mais rara e mais desejada pelo SUS.

Assim, o que Yoani disse foi que Cuba não forma especialistas e revela não saber que o Brasil não forma clínicos gerais na profusão que o seu país forma.

O problema é que o Senador Álvaro Dias sabe disso.

A questão, então, é: para formar um médico é preciso dispor de ultrasson e stents coronarianos? Não. Qualquer neófito sabe disso. É possível formar um clínico geral no Brasil, em Cuba e em qualquer lugar do mundo sem que ele nunca tenha visto um ultrasson, stents e outras maravilhas da tecnologia da medicina. A desvantagem que terá é que não logrará os ganhos salariais dos especialistas, não será dono de aparelhos e não receberá as mordomias (viagens, hospedagens em resorts, premiações, comissões …) da indústria tecnológica e dos fármacos.

O problema é que Álvaro Dias sabe disso.

E, descendo ao mundo do programa Mais Médicos, os profissionais que nele atuam vão ter que manusear aparelho de ultrassom, operar pacientes para introduzir stents e utilizar os avanços tecnológicos existentes nos hospitais dos grandes e médios centros de medicina no Brasil? Não! O programa mais médicos está contratando profissionais para a saúde primária, básica, que não necessitará utilizar aparelhos de ultrassom, não introduzirá stents nos pacientes, etc, etc, etc … A área da atuação do médico da família não será dentro das estruturas hospitalares e quando necessitar delas encaminhará seus pacientes como fazem todos os médicos que atuam nas nossas unidades básicas de saúde.

O Senador Álvaro Dias sabe disso.

 

Mas se o Senador Álvaro Dias sabe de tudo isso, qual a razão de utilizar um recurso de argumento tão grosseiro e reacionário no debate sobre o programa Mais Médicos?

A resposta eu deixo para o leitor, mas testemunho que em outros tempos o Senador Álvaro Dias tinha posturas muito mais progressistas e a favor da população mais pobre do Brasil, isso nos tempos em que mantinha boas relações com o MR8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro).

O fato é que, lamentavelmente, o bom Senador Álvaro Dias cai na geléia geral da crítica reacionária que se opõe ao programa sem uma reflexão sobre o problema fundamental.

A crítica reacionária de que o importante é o registro formal desses médicos no Brasil, o importante é que não falam português, o importante é que  quem receberá os seus salários é o governo cubano e assim estaremos ajudando a ditadura, o importante é saber do contrato do governo brasileiro com a OPAS, o importante é que o programa Mais Médicos dará ganhos eleitorais a Dilma, o importante é que a falta de médicos é culpa do governo do PT que está  a 10 anos no poder  e não resolveu o problema e agora tem que assumir a culpa, o importante é que o ministro da saúde enganou a mídia ao dizer que o governo havia desistido dos cubanos e que se alguns deles pedirem asilo o Brasil não concederá, etc, etc, etc …

Tudo isso parece ser importante e até razoável em alguns aspectos, mas o problema é que essa linha de argumentação transforma o interesse público em algo menor.

É como se o problema da falta de médico para os pobres não existisse, não fosse urgente, pois, afinal, já que o povo agüentou até agora que agüente mais um pouco até o governo fazer um plano de carreira para os profissionais de saúde, arrumar recursos para pagar salários de 15 a 25 mil reais a eles e fazer concurso público para contratar médicos.

Mas o interesse público não é a finalidade de prover a população mais pobre de médicos? Não é isso o importante e fundamental?

Jessé de Souza diz que a Má-fé Institucional do Estado e das elites da sociedade brasileira (aqui me refiro com realçe às entidades médicas) está em ignorar a existência da Ralé Brasileira como classe e a resistência ao programa Mais Médicos é um exemplo eloqüente disso.

O embate da oposição com o governo deveria ter como limite ético o interesse público, que é o que acontece em democracias onde os políticos são civilizados e capazes de formar consensos a favor do povo.

Leia mais:

Sobre o perfil dos cubanos a Organização Pan-Americana de Saúde divulgou mais informações sobre os primeiros profissionais médicos oriundos de Cuba que chegaram ao Brasil para participar do Programa Mais Médicos e também sobre o acordo de cooperação técnica entre o Ministério da Saúde do Brasil e a OPAS, que é uma representação da Organização Mundial da Saúde (OMS) para as Américas, través do qual se estabeleceu que 4 mil profissionais de Cuba virão ao país atuar no Programa Mais Médicos.

A divisão informada pela OPAS dos 400 médicos cubanos que chegam ao Brasil na primeira etapa do termo de cooperação, 89% têm mais de 35 anos, sendo 65% do total na faixa etária de 41 a 50 anos, 60% mulheres e 40% homens, sendo que 84% deles têm mais de 16 anos de experiência em medicina e todos já cumpriram missões em outros países, incluindo participação em missões em países de língua portuguesa, 20% com mestrado em saúde e todos com especialização em Medicina da Família e da Comunidade, exatamente o perfil de médico exigido no programa Mais Médicos do Brasil.

Joaquín Molina (OPAS) informou que a idéia foi obter o perfil de profissional direcionado às necessidades do programa Mais Médicos “São médicos experientes, que já trabalharam em países de língua portuguesa e com especialização em saúde da família. Com certeza, estamos trazendo um grupo muito preparado ao Brasil”.

Além do conhecimento e experiência que possuem os médicos cubanos participarão de treinamento e avaliação para adaptação do idioma de língua portuguesa e saúde pública brasileira de 26 de agosto a 13 de setembro, totalizando 120 horas, sendo que os aprovados nessa etapa serão deslocados aos municípios onde atuarão para iniciarem o atendimento à população, na segunda quinzena de setembro.

Os médicos que irão receber capacitação especial para atuar em municípios com população indígena serão concentrados em Brasília e a segunda etapa de capacitação do Programa Mais Médicos está prevista para ocorrer no mês de setembro.

A competência dos médicos de saúde básica (atenção, não alta e médica complexidade!) cubanos é reconhecida em todo o mundo é reconhecida no mundo tudo, são cerca de 40 mil profissionais espalhados por mais de 100 países e que travam com o governo americano uma dura batalha mundo afora.

Leia mais.

 

Sistema de Saúde cubano é elogiado no The New England Journal

Um Modelo Diferente – Atenção Médica em Cuba

Edward W. Campion, M.D., and Stephen Morrissey, Ph.D.

The New England Journal of Medicine, January 24, 2013.

Para um visitante dos Estados Unidos, Cuba desorienta. Automóveis norte-americanos estão em todo lugar, mas todos datam dos anos 50. Nossos cartões bancários, cartões de crédito e telefones inteligentes não funcionam. O acesso à internet é praticamente inexistente. E o sistema de saúde também parece irreal. Há médicos demais.

Todo mundo tem um médico da família. Tudo é de graça, totalmente de graça — e não precisa de aprovação prévia ou de algum tipo de pagamento. Todo o sistema parece de cabeça para baixo. É tudo muito organizado e a prioridade absoluta é a prevenção. Embora Cuba tenha recursos econômicos limitados, seu sistema de saúde resolveu alguns problemas que o nosso [dos Estados Unidos] ainda nem enfrentou.

Médicos de família, junto com enfermeiras e outros profissionais de saúde, são os responsáveis por dar atendimento primário e serviços preventivos para seu grupo de pacientes — cerca de mil pacientes por médico em áreas urbanas.

Todo o cuidado é organizado no plano local e os pacientes e seus profissionais de saúde geralmente vivem na mesma comunidade. Os dados médicos em fichas de papel são simples e escritos à mão, parecidos com os que eram usados nos Estados Unidos 50 anos atrás. Mas o sistema é surpreendentemente rico em informação e focado na saúde da população.

Todos os pacientes são categorizados de acordo com o nível de risco de saúde, de I a IV. Fumantes, por exemplo, estão na categoria de risco II, e pacientes com doença pulmonar crônica, mas estável, ficam na categoria III.

As clínicas comunitárias informam regularmente ao distrito sobre quantos pacientes tem em cada categoria de risco e sobre o número de pacientes com doenças como a hipertensão (bem controlada ou não), diabetes, asma, assim como sobre o status de imunização, data do último teste de Papanicolau e casos de gravidez/cuidado pré-natal.

Todo paciente é visitado em casa uma vez por ano e aqueles com doenças crônicas recebem visitas mais frequentes. Quando necessário, os pacientes podem ser direcionados a policlínicas distritais para avaliação de especialistas, mas eles retornam para as equipes comunitárias para acompanhamento. Por exemplo, a equipe local é responsável por garantir que o paciente com tuberculose siga as recomendações sobre o regime antimicrobial e que faça os exames.

Visitas em casa e conversas com familiares são táticas comuns para fazer com que os pacientes sigam as recomendações médicas, não abandonem o tratamento e mesmo para evitar gravidez indesejada. Numa tentativa de evitar infecções como a dengue, a equipe de saúde local visita as casas para fazer inspeções e ensinar as pessoas sobre como se livrar da água parada.

Este sistema altamente estruturado, orientado para a prevenção, produziu resultados positivos. As taxas de vacinação de Cuba estão entre as mais altas do mundo.

A expectativa de vida de 78 anos de idade é virtualmente idêntica à dos Estados Unidos. A taxa de mortalidade infantil em Cuba caiu de 80 por mil nos anos 50 para menos de 5 por mil — menor que nos Estados Unidos, embora a taxa de mortalidade materna esteja bem acima daquela dos países desenvolvidos e na média para os países do Caribe.

Sem dúvida, os resultados são consequência de melhorias em nutrição e educação, determinantes sociais básicos para a saúde pública. A taxa de alfabetização de Cuba é de 99% e o ensino sobre saúde é parte do currículo obrigatório das escolas. Um recente programa nacional para promover a aceitação de homens que fazem sexo com homens foi desenhado para reduzir as taxas de doenças sexualmente transmissíveis e aumentar a aceitação e adesão aos tratamentos.

Os cigarros já não são oferecidos na cesta básica mensal e o número de fumantes decresceu, embora as equipes médicas locais digam que continua difícil convencer fumantes a deixar o vício. Os contraceptivos são gratuitos e fortemente encorajados. O aborto é legal, mas considerado um fracasso do trabalho de prevenção.

Não se deve romantizar o sistema de saúde cubano. O sistema não é desenhado para escolha do consumidor ou iniciativas individuais. Não existe sistema de saúde privado pago como alternativa. Os médicos recebem benefícios do governo como moradia e alimentação, mas o salário é de apenas 20 dólares por mês. A educação é gratuita e eles são respeitados, mas é improvável que obtenham riqueza pessoal.

Cuba é um país em que 80% dos cidadãos trabalham para o governo e o governo é quem gerencia orçamentos. Nas clínicas de saúde comunitárias, placas informam aos pacientes quanto o sistema custa ao Estado, mas não há forças de mercado para promover eficiência.

Os recursos são limitados, como descobrimos ao ter contato com médicos e profissionais de saúde cubanos como parte de um grupo de editores-visitantes dos Estados Unidos. Um nefrologista de Cienfuegos, a 240 quilômetros de Havana, tem uma lista de 77 pacientes em diálise na província, o que em termos de população dá 40% da taxa dos Estados Unidos — similar ao que era nos Estados Unidos em 1985.

Um neurologista nos informou que seu hospital só recebeu um CT scanner doze anos atrás. Estudantes norte-americanos de universidades médicas cubanas dizem que o trabalho nas salas de cirurgia é rápido e eficiente, mas com pouca tecnologia. Acesso à informação via internet é mínimo. Um estudante informou que tem 30 minutos por semana de acesso discado.

Esta limitação, como muitas outras dificuldades de recursos que afetam o progresso, é atribuída ao embargo econômico dos Estados Unidos [imposto em 1960], mas podem existir outras forças no governo central trabalhando contra a comunicação fácil e rápida entre cubanos e os Estados Unidos.

Como resultado do estrito embargo econômico, Cuba desenvolveu sua própria indústria farmacêutica e agora fabrica a maior parte das drogas de sua farmacopeia básica, mas também alimenta uma indústria de exportação. Recursos foram investidos no desenvolvimento de expertise em biotecnologia, em busca de tornar Cuba competitiva no setor com os países avançados.

Existem jornais médicos acadêmicos em todas as especialidades e a liderança médica encoraja fortemente a pesquisa, a publicação e o fortalecimento de relações com outros países latino-americanos. As universidades médicas de Cuba, agora 22, continuam focadas em atendimento primário, com medicina familiar exigida como primeira residência de todos os formandos, embora Cuba já tenha hoje o dobro dos médicos per capita que os Estados Unidos.

Muitos dos médicos cubanos trabalham fora do país, como voluntários num programa de dois anos ou mais, pelo qual recebem compensação especial. Em 2008, havia 37 mil profissionais de saúde cubanos trabalhando em 70 paises do mundo. A maioria trabalha em áreas carentes, como parte da ajuda externa de Cuba, mas alguns estão em áreas mais desenvolvidas e seu trabalho traz benefício financeiro para o governo cubano (por exemplo, subsídios de petróleo da Venezuela).

Todo visitante pode ver que Cuba continua distante de ser um país desenvolvido em infraestrutura básica, como estradas, moradias e saneamento. Ainda assim, os cubanos começam a enfrentar os mesmos problemas de saúde de países desenvolvidos, com taxas crescentes de doenças coronárias, obesidade e uma população que envelhece (11,7% dos cubanos tem 65 anos de idade ou mais).

O seu incomum sistema de saúde enfrenta estes problemas com estratégias que evoluiram da peculiar história política e econômica de Cuba, um sistema que — com médicos para todos, foco em prevenção e atenção à saúde comunitária — pode informar progresso também para outros países.

27.08.2013

MÉDICOS CUBANOS PROVOCAM OS INSTINTOS MAIS SELVAGENS DAS ELITES REACIONÁRIAS. Empregada doméstica e médico não têm a mesma “cara”. Empregada vai “trabalhar descabelada, de chinelos e sem lavar a cara”. Médico geralmente “tem postura, tem cara de médico”.

 

Nos dias de ontem e hoje as pessoas de bom senso no Brasil assistiram, horrorizadas, as manifestações dos instintos mais selvagens da elite brasileira a respeito da presença de médicos cubanos no país, um grupo composto por algumas mulheres e homens negros.

As manifestações vão desde arroubos mais grotestos de puro racismo, como seu viu na postagem da jornalista potiguar Micheline Borges no Facebook, até a mais absoluta falta de respeito à população que deverá ser atendida pelos médicos cubanos, como no caso da manifestação do Presidente do CRM/MG que declarou que os médicos brasileiros não vão corrigir os “erros” dos cubanos.

Mas também iniciativas aparentemente inocentes e menos agressivas, mas tão preconceituosas quanto as outras, como as do Ministério Público do Trabalho e do Tribunal de Contas da União, instituições que deveriam estar mais preocupadas com a concretização do direito fundamental à saúde e com o programa constitucional de erradicação da miséria, da discriminação e das desigualdades regionais, incertos na Constituição Federal, de anunciar a abertura de procedimentos para apurar a suposta prática de trabalho escravo pela União Federal na contratação dos médicos cubanos, uma prática consolidada através de programas de assistência que envolve cerca de 40 mil profissionais de saúde de Cuba em cerca de 80 países (Veja abaixo).

Vamos passar vergonha internacional. Veja:

Empregada doméstica e médico não têm a mesma “cara”. Empregada vai “trabalhar descabelada, de chinelos e sem lavar a cara”. Médico geralmente “tem postura, tem cara de médico”.
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Mensagem gerou polêmica nas redes sociais nesta terça (Foto: Reprodução/Facebook)

 

Presidente do CRM-MG: vou orientar a não socorrer erros de cubanos

Em entrevista publicada no jornal Estado de Minas desta sexta-feira, o presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG), João Batista Gomes Soares, declarou que vai orientar os médicos a não socorrerem erros dos profissionais cubanos que foram contratados pelo governo brasileiro para trabalhar em áreas com carência de atendimento, pelo programa Mais Médicos. Ao Terra, Soares esclareceu a fala, que causou polêmica nas redes sociais. “Nós não temos que socorrer o médico cubano, nós temos que socorrer o paciente.”

“Nós não temos que assumir falha de médico cubano, nem pegar na mão de médico cubano para fazer nada. Nós temos um compromisso com o paciente. Mas nós temos que esclarecer ao paciente que nós estamos pegando dali para frente”, diz o presidente do CRM-MG.

“Posso te dar um exemplo: você pega um paciente que vai ao posto de saúde com uma dor de barriga. Daí, como eles são bem treinados em assistência básica, atendimento básico em saúde, eles vão tratar aquilo como uma diarreia. Na verdade essa diarreia pode estar escondendo uma apendicite. Daí a diarreia para, o paciente vai para casa, continua com dor de barriga, continua com febre. A apendicite está lá dentro. Aquela apendicite gera um abcesso e gera uma infecção interna, que a gente chama de peritonite. Na hora que o paciente chegar na minha mão, eu tenho que deixar bem claro que eu peguei o caso a partir daquele momento, qual é a gravidade daquele caso. Se aquele caso tivesse sido diagnosticado lá atrás, com certeza, o resultado seria outro”, diz Soares.​

 

 

Portal Terra: Com informações da Agência Brasil.

Médicos chamam cubanos de 'escravos e incompetentes' e cercam prédio no Ceará

Médicos cubanos foram recebidos com vaias e chamados de “escravos” e “incompetentes” por profissionais cearenses na saída do primeiro dia do curso do Mais Médicos, do governo federal, em Fortaleza. Os revoltosos eram liderados pelo Sindicato dos Médicos do Ceará (Simec) e exibiam faixas de protesto em que exigiam a obrigatoriedade do Revalida, exame para revalidação de diplomas de profissionais estrangeiros. Segundo matéria de O Povo, o protesto teve início às 18h e levou a segurança do local a fechar as portas para impedir o acesso dos manifestantes. O ato de protesto era conduzido pelo Sindicato dos Médicos do Ceará (Simec). “Isso é uma palhaçada. Como se aprende medicina, português e legislação do SUS (Sistema Único de Saúde) em três semanas?”, bradou o presidente do Simec, José Maria Pontes. Por volta das 20h, quando a solenidade terminou, os manifestantes começaram a bater com força nas paredes de vidro do prédio, com ameaça de quebrá-las. Com os médicos estrangeiros presos no prédio, foi convocado reforço policial com carros da Polícia Militar cearense.

Fonte: Bahia Notícias

 

Ministério Público abre investigação sobre condições de trabalho de médicos cubanos

André Richter
Repórter da Agência Brasil

Brasília – O Ministério Público Federal (MPF) no Distrito Federal abriu hoje (27) uma investigação para apurar as condições de trabalho oferecidas aos médicos cubanos que vão trabalhar no Brasil. Eles vão atuar em locais que não atraíram nenhum profissional do Programa Mais Médicos do governo federal.

Segundo o MP, o objetivo do inquérito civil é analisar se as normas internas e internacionais de proteção aos direitos humanos estão sendo cumpridas. Para embasar a investigação, o MPF pediu aos ministérios da Saúde e da Educação e à Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) informações sobre o programa. O prazo para o envio é 15 dias, após a notificação.

De acordo com o Ministério da Saúde, 4 mil médicos cubanos devem chegar ao país. Na primeira etapa do acordo, que começou na segunda-feira (26), 400 profissionais desembarcaram no Brasil e mais 2 mil são aguardados no dia 4 de outubro. Os profissionais não vão precisar fazer o exame para revalidar o diploma de medicina.

O governo federal vai pagar uma bolsa de R$ 10 mil aos profissionais cubanos. O valor será repassado ao governo de Cuba, com a intermediação da Opas para posterior pagamento aos médicos.

 

TCU vai analisar acordo para trazer médicos cubanos

O Tribunal de Contas da União (TCU) vai analisar a documentação que embasou o acordo entre o Brasil e Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) que vai trazer 4 mil médicos cubanos para atuar nas regiões carentes do País. “É uma questão singular, inusual esse formato de contratação”, avaliou o presidente do TCU, Augusto Nardes, nesta segunda-feira, logo depois de reunião com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, sobre o tema.

Em diligência, o TCU pediu que o Ministério da Saúde entregue até sexta-feira a documentação para análise da legalidade, da efetividade e das questões econômicas do acordo. Nardes assemelhou a contratação dos médicos cubanos a uma terceirização.

“Nós temos uma preocupação com a questão trabalhista”, disse Nardes, acrescentando que o tribunal ainda vai analisar a documentação, que deve ser entregue pelo Ministério da Saúde, pois a conversa com Padilha ainda deixou dúvidas sobre o acordo. “Ainda não temos as informações adequadas”, disse. Dependendo do resultado das análises, o TCU pode abrir um processo de investigação da contratação dos médicos cubanos.

Diferentemente do acordo com os médicos que se inscreveram individualmente no Mais Médicos, que receberão a bolsa de R$ 10 mil diretamente do governo brasileiro, o acordo com Cuba é feito com a intermediação da Opas. No caso, o governo brasileiro repassa R$ 10 mil por médico para a entidade internacional, esta faz o repasse para o governo cubano, que faz o pagamento ao profissional.

De acordo com Nardes, o Ministro da Saúde disse que parte da verba vai para a família do médico, que vai permanecer na ilha. Segundo o secretário adjunto de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Fernando Menezes, os médicos cubanos que atuarão no Programa Mais Médicos deverão ganhar entre R$ 2,5 mil e R$ 4 mil por mês.

Nardes disse que na reunião houve um grande debate sobre as questões legal e da efetividade do programa.”Tudo isso nós vamos avaliar para tentar encontrar um caminho que possa ajudar a população brasileira”, disse o presidente.

O PROGRAMA CUBANO

O programa do Governo Cubano para envio de médicos a outros países teve início em 1963, como parte de uma política externa de apoio a lutas anti-coloniais, quando uma pequena brigada médica chegou a Argélia que se ressentia de uma retirada em massa de médicos franceses em razão da guerra pela independência. Paradoxalmente, Cuba fez isso em um momento em que metade dos seus 6000 médicos haviam deixado o país em razão da reveolução Cubana de 1959 (Wikipedia).

A partir daí, entre 1966 e 1974, os médicos cubanos trabalharam na Guiné-BissauAngola,Nicarágua e em 2007 Cuba já tinha 42 mil trabalhadores em programas de cooperação internacional em 103 países, dos quais mais de 30.000 são profissionais de saúde, incluindo nada menos que 19 mil médicos.

Cuba, sozinha, fornece mais médicos para o mundo em desenvolvimento do que todo o contingente dos paízes do G8.

As missões cubanas tiveram impacto positivo significativo sobre as populações atendidas e essas missões de profissionais de saúde no exterior são destinadas a fornecer serviços a baixo custo para o país anfitrião. ”Os pacientes não são cobrados por serviços, e os países beneficiários devem cobrir apenas o custo da habitação coletiva, passagem aérea e alimentação limitada e suprimentos não superior a US $ 200 por mês. Enquanto os médicos cubanos estão no exterior, eles continuam a receber seus salários como bem como uma remuneração em moeda estrangeira” (Wikipedia).

Os médicos cubanos que vão ao exterior acabam recebendo uma remuneração melhor que a que recebem no seu país (US $ 23 por mês, valor considerado baixo para os padrões internacionais de $ 183 por mês), circunstância que não tem sido impecilho para o desenvolvimento do programa ao longo dos anos na medida em que o ideal socialista de desenvolvimento e preservação da ajuda humanitária internacionalista que define a causa (Wikipedia).

Mas a partir de agosto de 2006, sob a administração de George W. Bush, os EUA passou a atacar duramente o programa através da criação de um programa denominado Cuban Medical Professional Parole, cujo objetivo é  incentivar os médicos cubanos no exterior a desertar e ir para os EWUA onde sua entrada e o exercício profissional são facilitados, pois gozam de bom conceito no mercado americano pela sua excelência em saúde básica. O programa de Bush produziu resultados limitados até agora e de um número estimado de 40.000 profissionais cubanos no exterior logrou éxito em cooptar apenas cerca de 1.000 até outubro de 2007, de acordo com o chefe de gabinete do EUA Rep. Lincoln Diaz-Balart .