YOANI SANCHEZ, ÁLVARO DIAS, OS POBRES, MÉDICOS CUBANOS E A MÁ-FÉ INSTITUCIONAL

Do R7

Senador do PSDB reproduziu suposta crítica de blogueira cubanaReprodução/Facebook

O senador Alvaro Dias (PSDB-PR) usou sua página no Facebook para criticar o programa Mais Médicos  utilizando uma suposta mensagem da blogueira cubana Yoani Sanchez onde ela critica o sistema de saúde do seu país, dizendo:

“A medicina cubana é uma das mais atrasadas do mundo. A maioria dos seus profissionais se formam sem nunca ter visto um aparelho de ultrassom,  sem ouvir falar em stent coronário e sem poder se atualizar pela internet”.

É bem provável que Yoani, que tem travado uma bela caminhada contra a ditadura cubana dentro e fora da ilha, tenha, de fato, dado a declaração e que seu conteúdo seja relativamente correto.

Como se extrai da declaração, no entanto, é que Yoani se refere ao fato dos estudantes de medicina em Cuba não terem acesso fácil a aparelhos de ultrassom, stents coronarianos e outros avanços tecnológicos largamente utilizados nas medicinas dos países mais avançados do ocidente.

A questão, então, é a que medicina Yoani está se referindo? Aparentemente a cubana gostaria que seu país formasse médicos como formamos no Brasil, especialistas para todas as áreas da medicina. O problema do nosso ensino médico é que ele não forma profissionais para a saúde básica na quantidade que o país precisa, o antigo clínico geral, figura em extinção no Brasil, cada vez mais rara e mais desejada pelo SUS.

Assim, o que Yoani disse foi que Cuba não forma especialistas e revela não saber que o Brasil não forma clínicos gerais na profusão que o seu país forma.

O problema é que o Senador Álvaro Dias sabe disso.

A questão, então, é: para formar um médico é preciso dispor de ultrasson e stents coronarianos? Não. Qualquer neófito sabe disso. É possível formar um clínico geral no Brasil, em Cuba e em qualquer lugar do mundo sem que ele nunca tenha visto um ultrasson, stents e outras maravilhas da tecnologia da medicina. A desvantagem que terá é que não logrará os ganhos salariais dos especialistas, não será dono de aparelhos e não receberá as mordomias (viagens, hospedagens em resorts, premiações, comissões …) da indústria tecnológica e dos fármacos.

O problema é que Álvaro Dias sabe disso.

E, descendo ao mundo do programa Mais Médicos, os profissionais que nele atuam vão ter que manusear aparelho de ultrassom, operar pacientes para introduzir stents e utilizar os avanços tecnológicos existentes nos hospitais dos grandes e médios centros de medicina no Brasil? Não! O programa mais médicos está contratando profissionais para a saúde primária, básica, que não necessitará utilizar aparelhos de ultrassom, não introduzirá stents nos pacientes, etc, etc, etc … A área da atuação do médico da família não será dentro das estruturas hospitalares e quando necessitar delas encaminhará seus pacientes como fazem todos os médicos que atuam nas nossas unidades básicas de saúde.

O Senador Álvaro Dias sabe disso.

 

Mas se o Senador Álvaro Dias sabe de tudo isso, qual a razão de utilizar um recurso de argumento tão grosseiro e reacionário no debate sobre o programa Mais Médicos?

A resposta eu deixo para o leitor, mas testemunho que em outros tempos o Senador Álvaro Dias tinha posturas muito mais progressistas e a favor da população mais pobre do Brasil, isso nos tempos em que mantinha boas relações com o MR8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro).

O fato é que, lamentavelmente, o bom Senador Álvaro Dias cai na geléia geral da crítica reacionária que se opõe ao programa sem uma reflexão sobre o problema fundamental.

A crítica reacionária de que o importante é o registro formal desses médicos no Brasil, o importante é que não falam português, o importante é que  quem receberá os seus salários é o governo cubano e assim estaremos ajudando a ditadura, o importante é saber do contrato do governo brasileiro com a OPAS, o importante é que o programa Mais Médicos dará ganhos eleitorais a Dilma, o importante é que a falta de médicos é culpa do governo do PT que está  a 10 anos no poder  e não resolveu o problema e agora tem que assumir a culpa, o importante é que o ministro da saúde enganou a mídia ao dizer que o governo havia desistido dos cubanos e que se alguns deles pedirem asilo o Brasil não concederá, etc, etc, etc …

Tudo isso parece ser importante e até razoável em alguns aspectos, mas o problema é que essa linha de argumentação transforma o interesse público em algo menor.

É como se o problema da falta de médico para os pobres não existisse, não fosse urgente, pois, afinal, já que o povo agüentou até agora que agüente mais um pouco até o governo fazer um plano de carreira para os profissionais de saúde, arrumar recursos para pagar salários de 15 a 25 mil reais a eles e fazer concurso público para contratar médicos.

Mas o interesse público não é a finalidade de prover a população mais pobre de médicos? Não é isso o importante e fundamental?

Jessé de Souza diz que a Má-fé Institucional do Estado e das elites da sociedade brasileira (aqui me refiro com realçe às entidades médicas) está em ignorar a existência da Ralé Brasileira como classe e a resistência ao programa Mais Médicos é um exemplo eloqüente disso.

O embate da oposição com o governo deveria ter como limite ético o interesse público, que é o que acontece em democracias onde os políticos são civilizados e capazes de formar consensos a favor do povo.

Leia mais:

Sobre o perfil dos cubanos a Organização Pan-Americana de Saúde divulgou mais informações sobre os primeiros profissionais médicos oriundos de Cuba que chegaram ao Brasil para participar do Programa Mais Médicos e também sobre o acordo de cooperação técnica entre o Ministério da Saúde do Brasil e a OPAS, que é uma representação da Organização Mundial da Saúde (OMS) para as Américas, través do qual se estabeleceu que 4 mil profissionais de Cuba virão ao país atuar no Programa Mais Médicos.

A divisão informada pela OPAS dos 400 médicos cubanos que chegam ao Brasil na primeira etapa do termo de cooperação, 89% têm mais de 35 anos, sendo 65% do total na faixa etária de 41 a 50 anos, 60% mulheres e 40% homens, sendo que 84% deles têm mais de 16 anos de experiência em medicina e todos já cumpriram missões em outros países, incluindo participação em missões em países de língua portuguesa, 20% com mestrado em saúde e todos com especialização em Medicina da Família e da Comunidade, exatamente o perfil de médico exigido no programa Mais Médicos do Brasil.

Joaquín Molina (OPAS) informou que a idéia foi obter o perfil de profissional direcionado às necessidades do programa Mais Médicos “São médicos experientes, que já trabalharam em países de língua portuguesa e com especialização em saúde da família. Com certeza, estamos trazendo um grupo muito preparado ao Brasil”.

Além do conhecimento e experiência que possuem os médicos cubanos participarão de treinamento e avaliação para adaptação do idioma de língua portuguesa e saúde pública brasileira de 26 de agosto a 13 de setembro, totalizando 120 horas, sendo que os aprovados nessa etapa serão deslocados aos municípios onde atuarão para iniciarem o atendimento à população, na segunda quinzena de setembro.

Os médicos que irão receber capacitação especial para atuar em municípios com população indígena serão concentrados em Brasília e a segunda etapa de capacitação do Programa Mais Médicos está prevista para ocorrer no mês de setembro.

A competência dos médicos de saúde básica (atenção, não alta e médica complexidade!) cubanos é reconhecida em todo o mundo é reconhecida no mundo tudo, são cerca de 40 mil profissionais espalhados por mais de 100 países e que travam com o governo americano uma dura batalha mundo afora.

Leia mais.

 

Sistema de Saúde cubano é elogiado no The New England Journal

Um Modelo Diferente – Atenção Médica em Cuba

Edward W. Campion, M.D., and Stephen Morrissey, Ph.D.

The New England Journal of Medicine, January 24, 2013.

Para um visitante dos Estados Unidos, Cuba desorienta. Automóveis norte-americanos estão em todo lugar, mas todos datam dos anos 50. Nossos cartões bancários, cartões de crédito e telefones inteligentes não funcionam. O acesso à internet é praticamente inexistente. E o sistema de saúde também parece irreal. Há médicos demais.

Todo mundo tem um médico da família. Tudo é de graça, totalmente de graça — e não precisa de aprovação prévia ou de algum tipo de pagamento. Todo o sistema parece de cabeça para baixo. É tudo muito organizado e a prioridade absoluta é a prevenção. Embora Cuba tenha recursos econômicos limitados, seu sistema de saúde resolveu alguns problemas que o nosso [dos Estados Unidos] ainda nem enfrentou.

Médicos de família, junto com enfermeiras e outros profissionais de saúde, são os responsáveis por dar atendimento primário e serviços preventivos para seu grupo de pacientes — cerca de mil pacientes por médico em áreas urbanas.

Todo o cuidado é organizado no plano local e os pacientes e seus profissionais de saúde geralmente vivem na mesma comunidade. Os dados médicos em fichas de papel são simples e escritos à mão, parecidos com os que eram usados nos Estados Unidos 50 anos atrás. Mas o sistema é surpreendentemente rico em informação e focado na saúde da população.

Todos os pacientes são categorizados de acordo com o nível de risco de saúde, de I a IV. Fumantes, por exemplo, estão na categoria de risco II, e pacientes com doença pulmonar crônica, mas estável, ficam na categoria III.

As clínicas comunitárias informam regularmente ao distrito sobre quantos pacientes tem em cada categoria de risco e sobre o número de pacientes com doenças como a hipertensão (bem controlada ou não), diabetes, asma, assim como sobre o status de imunização, data do último teste de Papanicolau e casos de gravidez/cuidado pré-natal.

Todo paciente é visitado em casa uma vez por ano e aqueles com doenças crônicas recebem visitas mais frequentes. Quando necessário, os pacientes podem ser direcionados a policlínicas distritais para avaliação de especialistas, mas eles retornam para as equipes comunitárias para acompanhamento. Por exemplo, a equipe local é responsável por garantir que o paciente com tuberculose siga as recomendações sobre o regime antimicrobial e que faça os exames.

Visitas em casa e conversas com familiares são táticas comuns para fazer com que os pacientes sigam as recomendações médicas, não abandonem o tratamento e mesmo para evitar gravidez indesejada. Numa tentativa de evitar infecções como a dengue, a equipe de saúde local visita as casas para fazer inspeções e ensinar as pessoas sobre como se livrar da água parada.

Este sistema altamente estruturado, orientado para a prevenção, produziu resultados positivos. As taxas de vacinação de Cuba estão entre as mais altas do mundo.

A expectativa de vida de 78 anos de idade é virtualmente idêntica à dos Estados Unidos. A taxa de mortalidade infantil em Cuba caiu de 80 por mil nos anos 50 para menos de 5 por mil — menor que nos Estados Unidos, embora a taxa de mortalidade materna esteja bem acima daquela dos países desenvolvidos e na média para os países do Caribe.

Sem dúvida, os resultados são consequência de melhorias em nutrição e educação, determinantes sociais básicos para a saúde pública. A taxa de alfabetização de Cuba é de 99% e o ensino sobre saúde é parte do currículo obrigatório das escolas. Um recente programa nacional para promover a aceitação de homens que fazem sexo com homens foi desenhado para reduzir as taxas de doenças sexualmente transmissíveis e aumentar a aceitação e adesão aos tratamentos.

Os cigarros já não são oferecidos na cesta básica mensal e o número de fumantes decresceu, embora as equipes médicas locais digam que continua difícil convencer fumantes a deixar o vício. Os contraceptivos são gratuitos e fortemente encorajados. O aborto é legal, mas considerado um fracasso do trabalho de prevenção.

Não se deve romantizar o sistema de saúde cubano. O sistema não é desenhado para escolha do consumidor ou iniciativas individuais. Não existe sistema de saúde privado pago como alternativa. Os médicos recebem benefícios do governo como moradia e alimentação, mas o salário é de apenas 20 dólares por mês. A educação é gratuita e eles são respeitados, mas é improvável que obtenham riqueza pessoal.

Cuba é um país em que 80% dos cidadãos trabalham para o governo e o governo é quem gerencia orçamentos. Nas clínicas de saúde comunitárias, placas informam aos pacientes quanto o sistema custa ao Estado, mas não há forças de mercado para promover eficiência.

Os recursos são limitados, como descobrimos ao ter contato com médicos e profissionais de saúde cubanos como parte de um grupo de editores-visitantes dos Estados Unidos. Um nefrologista de Cienfuegos, a 240 quilômetros de Havana, tem uma lista de 77 pacientes em diálise na província, o que em termos de população dá 40% da taxa dos Estados Unidos — similar ao que era nos Estados Unidos em 1985.

Um neurologista nos informou que seu hospital só recebeu um CT scanner doze anos atrás. Estudantes norte-americanos de universidades médicas cubanas dizem que o trabalho nas salas de cirurgia é rápido e eficiente, mas com pouca tecnologia. Acesso à informação via internet é mínimo. Um estudante informou que tem 30 minutos por semana de acesso discado.

Esta limitação, como muitas outras dificuldades de recursos que afetam o progresso, é atribuída ao embargo econômico dos Estados Unidos [imposto em 1960], mas podem existir outras forças no governo central trabalhando contra a comunicação fácil e rápida entre cubanos e os Estados Unidos.

Como resultado do estrito embargo econômico, Cuba desenvolveu sua própria indústria farmacêutica e agora fabrica a maior parte das drogas de sua farmacopeia básica, mas também alimenta uma indústria de exportação. Recursos foram investidos no desenvolvimento de expertise em biotecnologia, em busca de tornar Cuba competitiva no setor com os países avançados.

Existem jornais médicos acadêmicos em todas as especialidades e a liderança médica encoraja fortemente a pesquisa, a publicação e o fortalecimento de relações com outros países latino-americanos. As universidades médicas de Cuba, agora 22, continuam focadas em atendimento primário, com medicina familiar exigida como primeira residência de todos os formandos, embora Cuba já tenha hoje o dobro dos médicos per capita que os Estados Unidos.

Muitos dos médicos cubanos trabalham fora do país, como voluntários num programa de dois anos ou mais, pelo qual recebem compensação especial. Em 2008, havia 37 mil profissionais de saúde cubanos trabalhando em 70 paises do mundo. A maioria trabalha em áreas carentes, como parte da ajuda externa de Cuba, mas alguns estão em áreas mais desenvolvidas e seu trabalho traz benefício financeiro para o governo cubano (por exemplo, subsídios de petróleo da Venezuela).

Todo visitante pode ver que Cuba continua distante de ser um país desenvolvido em infraestrutura básica, como estradas, moradias e saneamento. Ainda assim, os cubanos começam a enfrentar os mesmos problemas de saúde de países desenvolvidos, com taxas crescentes de doenças coronárias, obesidade e uma população que envelhece (11,7% dos cubanos tem 65 anos de idade ou mais).

O seu incomum sistema de saúde enfrenta estes problemas com estratégias que evoluiram da peculiar história política e econômica de Cuba, um sistema que — com médicos para todos, foco em prevenção e atenção à saúde comunitária — pode informar progresso também para outros países.

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