MÉDICOS ESTRANGEIROS COMEÇAM A TRABALHAR: “não preciso de nada mais, só um estetoscópio”

O reacionário maravilhoso Nelson Rodrigues, fanático torcedor do Fluminense, narra uma história na qual um certo torcedor do tricolor não gostava do goleiro. Aliás, tinha ódio do goleiro. Então, no início dos jogos o torcedor se postava no fundo do gol e de tal modo que pudesse gritar com o goleiro. Segundo Nelson, dirigia-se ao goleiro chamando-o de “médico! médico! médico!”. A cada jogada em que o goleiro participava o torcedor gritava “médico! médico! médico!”, deixando a impressão que, na verdade, estava detratando o pobre goleiro.
Pois, um belo dia, no curso de uma partida, o goleiro tomou um frango inesquecível. O torcedor foi à loucura e, enfurecido, passou a gritar “clínico! clínico! clínico!”
Nada contra médico, mas o quadro retrata o quanto de preconceito se impregnou sobre a figura do médico clínico, hoje uma figura fundamental e ao mesmo tempo em extinção.
Sobre isso, Boaventura Souza Santos anota que “a medicina verifica que hiperespecialização do saber médico transformou o doente numa quadrícula sem sentido quando, de facto, nunca estamos doentes senão em geral (…) Apenas para dar um exemplo, o médico generalista, cuja ressurreição visou compensar a hiperespecialização médica, corre o risco de se ver convertido num especialista ao lado dos demais” (Um discurso sobre ciências, Editora Cortez).
A coisa chegou a tal ponto que médico que não pede exame e não receita remédio, não é de confiança do povão. O paciente mais simples fica indignado se o médico não pede exame e nem receita remédio. No dia seguinte ele vai a outro posto em busca de um médico que dê uma receita médica ou peça um exame. Já vi isso.
Essa é a cultura que se popularizou no Brasil entre as pessoas mais simples e que também produz o preconceito contra o clínico na própria classe médica. Os jovens de hoje já não querem mais ser clínicos, querem ser especialistas, trabalhar com máquinas.
Mas parece que nem tudo está perdido. Eis que uma médica estrangeira, dessas que o Mais Médicos está trazendo, e que os CRMs está dizendo que não são tão capazes quanto os nossos médicos, soltou uma pérola: “não preciso de nada mais, só um estetoscópio”. 
Veja:

Akemi Nitahara
Repórter da Agência Brasil

O médico de família precisa de suas mãos e sua cabeça para trabalhar. As outras coisas são complementares. A opinião é da médica espanhola Amaia Foces, que tem especialidade em medicina da família e comunitária, e experiência de mais de 12 anos no Reino Unido. Apesar de reconhecer as dificuldades enfrentadas por muitos municípios, ela rebate as críticas ao Programa Mais Médicos, segundo as quais falta estrutura para nas cidades escolhidas pelo Ministério da Saúde.

“Os remédios básicos vocês têm no Brasil, e não precisa de uma medicação muito especializada. Para 95% dos problemas que a gente vai ver, eu tenho as minhas mãos, os meus olhos e a minha cabeça, e não preciso de nada mais, só um estetoscópio”, diz Amaia Foces. Para ela, que vai para o município de Itaguaí, na região metropolitana do Rio, a expectativa é de ajudar a população que mais precisa de assistência. “Eu estou entusiasmada com a paixão do pessoal da saúde aqui, da assistência básica, a emoção que eles estão colocando, os esforços de melhorar a saúde, eles estão perto da população”, disse.

Amaia faz parte do grupo de 12 médicos, com diploma no exterior, que vai atuar no estado do Rio. Após as quatro semanas de curso, os profissionais passaram por mais uma semana de ambientação para conhecer os equipamentos da rede estadual. A superintendente de Atenção Básica da Secretaria de Estado de Saúde, Andrea Mello, explica que, desde segunda-feira, os médicos assistem a palestras e fazem visitas às unidades.

A visita de hoje (19) foi ao Centro de Diagnóstico por Imagem. Na próxima segunda-feira, os profissionais chegam aos municípios, onde passam por nova ambientação e começam a atender a população. No Rio de Janeiro, 69 municípios aderiram ao programa, solicitando 506 médicos. Na primeira etapa, foram 72 médicos alocados em 29 municípios, entre eles 12 estrangeiros.

CRM DO RIO GRANDE DO SUL LIBERA ESTRANGEIROS PARA TRABALHAR

O Cremers concedeu licença nesta quinta-feira (19) para 19 médicos (brasileiros formados no exterior, uruguaios, argentinos, cubanos e até um palestino) para atuarem no Estado para o programa Mais Médicos. Há mais 21 pedidos sendo analisados.

O Rio Grande do Sul se torna o primeiro Estado brasileiro a fornecer o documento para os profissionais, que devem iniciar as atividades nos municípios selecionados a partir de segunda-feira, dia 23. O Cremers foi o primeiro conselho do País a ajuziar ação civil pública na Justiça Federal. Na quarta-feira, dia 18, após diversas tentativas por parte da classe médica, uma nova decisão judicial determinou que o Cremers fornecesse o documento aos médicos.

NO PARANÁ CRM RESISTE EM LICENCIAR ESTRANGEIROS

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Conselho alega que a documentação de todos estava incompleta

O presidente do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR), Alexandre Gustavo Bley, afirmou que o CRM-PR não vai inscrever médicos formados no exterior, brasileiros ou estrangeiros, por falta de segurança documental. “É uma decisão de segurança e de zelo. Como vou receber um profissional para atuar no mercado de trabalho se não tem uma segurança mínima de que ele seja um médico? Teve até um caso em que o diploma era de outra pessoa – um médico usou o diploma de uma médica. Nada de autenticação ou de chancela consular. Não existe a mínima segurança para a inscrição desses profissionais. Da forma como o governo está tratando isso, não tenho a mínima condição de inscrever. É questão de consciência”, relatou. O CRM-PR informou que recebeu 21 pedidos de inscrição de médicos formados em outros países – sendo dez brasileiros e 11 estrangeiros – que vieram ao estado para participar do programa “Mais Médicos”, do governo federal. Os profissionais têm formação na Argentina, Espanha, Rússia, Portugal, México, Itália, Egito e Venezuela. Trinta médicos com diploma registrado no exterior chegaram ao Paraná entre sábado (14) e domingo (15).  A previsão é que eles comecem a trabalhar na segunda-feira (23). O grupo será dividido em 19 municípios do estado.

De acordo com o CRM-PR, nenhum candidato tinha toda a documentação exigida pelo programa “Mais Médicos” para efetuar a inscrição no Conselho. O Conselho Regional de Medicina do Paraná alegou que recebeu cópias simples de diplomas de medicina sem tradução juramentada para o português, diplomas com tradução simples sem qualquer assinatura ou carimbo ou sem chancela do governo brasileiro, fotos sem identificação clara, documentos e formulários trocados e até casos em que o diploma não foi sequer apresentado. Para o CRM-PR, isso indica que os documentos não foram analisados pelo governo.