A mídia vira-lata e a parada de Dilma em Lisboa

Na viagem de Davos para Cuba a aeronave da Presidência da República, que transportava a Presidente Dilma e sua comitiva, fez uma escala em Portugal.
O protocolo acusa que a aeronave pousou em Lisboa próximo das 17 horas e decolou às 9 horas do dia seguinte.
No pernoite em Lisboa a presidente foi jantar no restaurante Eleven, um dos três únicos da cidade a ter uma estrela no guia Michelin, e ficou hospedada no Ritz Four Seasons, um dos mais luxuosos da capital.
A partir dessas informações a mídia noticiou que Dilma não tinha o que fazer em Lisboa e parou lá, ficou no melhor hotel e jantou no melhor restaurante.
Mais que isso, pouso da aeronave em Lisboa não constou da agenda da Presidente e isso demonstra que tentaram esconder a passagem dela por lá, como se fosse, digamos uma fugidinha que o país não deveria saber.
Diante desse quadro, qualquer um diria que houve falta de respeito com o pobre povo brasileiro.
É o resultado quando se junta jornalismo de qualidade discutível, ou de caráter ruim, com embate eleitoral.
É legítimo que a oposição queira explorar as mazelas da presidência da república, mas o jornalismo deveria dar-se ao respeito.
Então vamos ao que, deliberadamente ou não, faltou aos profissionais que cobriram a parada de Dilma em Lisboa.
Porque parou? Que tal perguntar isso, singelamente?
O avião da presidência da república saiu de Davos e ela tinha que ir a Cuba. Para tanto, tinha que realizar uma escala. Não se pode brincar com isso em aviação. Os procedimentos são rígidos. Basta olhar no mapa, ver a distância, que a aeronave tinha que descer no sentido norte-sul e anti-horário. Segundo o protocolo, a escala poderia ser nos EUA ou em um país da Europa. Como nos EUA as nevascas estão fechando os aeroportos com frequência nesse período do ano a opção da segurança do vôo foi escolher Lisboa. Uma escolha prudente e recomendável. Lisboa está quase alinhada com Havana, basta superar o oceano. Coisa para o leigo perceber facilmente. Achar que é o passageiro quem define isso, mesmo em vôos exclusivos, não é sério. Em vôo oficial tampouco.
Dilma teria que fazer constar da sua agenda a parada em Lisboa? Ou pelos menos fazer constar que, hipoteticamente, se a nevasca não permitisse a ida aos EUA, essa alternativa de parada ou todas as outras possíveis (Madri, Londres, Ilhas Canárias …)?
A imprensa merece toda a atenção, mas fantasiar que Dilma queria se esconder em Lisboa é maluquice. É a prova é que tirou foto com o Chef do restaurante. Como, se queria se esconder? Contra maluquice não tem argumento.
Está, então, mais que explicada a parada em Lisboa. Como avião não é carro, que para abastecer e cair na estrada, o pernoite em Lisboa foi necessário.
Nenhuma matéria deu-se ao trabalho de esclarecer isso.
Quanto ao restante, desconheço que algum presidente da república tenha tido, ou até que venha a ter, comportamento diferente em relação ao local da hospedagem.
Isto porque essa decisão não depende do presidente, mas é fortemente determinada pelos rigorosos protocolos do serviço de segurança presidencial e de seu cerimonial.
Nenhuma matéria trouxe essa informação.
Poderia inclusive se apurar como fez FHC, Itamar Franco (que parece ter sido representante diplomático também), Lula, Collor, Sarney, quando estiveram por lá. Não?
Então vamos às próximas perguntas.
Qual hotel oferece o melhor sistema de segurança para hospedar um presidente da república na capital portuguesa? Há outros com essa condição em Lisboa? Qual seria a diferença das diárias entre eles?
Nenhuma matéria veiculou informações com essas respostas.
Então, veiculou-se informação à esmo, sem precisão, sem esgotar o objeto da investigação jornalística. Má-fé ou despreparo?
Dilma ficou no hotel que cumpre as exigências de segurança e do cerimonial, como faria qualquer presidente da república. Nada de errado.
Além disso, o presidente da República do Brasil, quem quer que seja, não é um qualquer (apesar de todo o viralatismo tupiniquim que ainda impregna algumas de nossas mais brilhantes mentes).
Quanto ao jantar, a falta de profissionalismo da cobertura foi ao extremo.
Esqueceram de perguntar quem pagou a conta! O mais óbvio! Santo Deus! Má-fé ou despreparo?
— Eu posso escolher o restaurante que for, desde que eu pague a minha conta. Eu pago a minha conta. Pode ter certeza disso. Pode olhar em todos os restaurantes que eu tive, em alguns causando constrangimento. Porque fica esquisito uma presidente e uma porção de ministros fazendo aquela conta de quanto deu pra cada um: “Soma aí, deu quanto?” e com a calculadora. Eu acho isso extremamente democrático e republicano. Não tem a menor condição de alguma vez eu usar cartão corporativo. Não fiz isto. No meu caso está previsto para mim cartão corporativo, mas eu não faço isso porque eu considero que é de todo oportuno que eu dê exemplo, diferenciando o que é consumo privado do que é consumo público — afirmou a presidente.
Pronto! Precisa mais?
Os profissionais que cobriram a viagem poderiam ter sido profissionais e evitado que a oposição passasse o ridículo pelo qual vai passar, pois, agindo de modo apressado, no afã de ganhos eleitorais, já vai fazendo bobagens.
A oposição ingressou com representação contra Dilma na Comissão de Ética Pública da Presidência para analisar se ela infringiu o Código de Conduta da Alta Administração Federal.
O senador Aécio Neves, presidente do PSDB e possível candidato tucano à Presidência da República, disse que a parada em Lisboa foi feita “de forma dissimulada”.
O que o Senador Aécio sabe que o planeta Terra não sabe sobre a escala de Dilma em Lisboa? Se não é um boquirroto qualquer tem que dizer o que foi dissimulado.
O que o Senador poderia dizer como foram as suas viagens como governador para fora de Minas, inclusive para o exterior, e expor que seu comportamento como governante difere dos outros.
Democracia pressupõe consenso e conflito. A necessidade de conflito, resultante da disputa pelo poder, tem causado danos irreparáveis ao outro requisito fundamental da nossa democracia. O resultado é a falta de consenso e um desgaste brutal, às vezes irresponsável, e desnecessário das instituições. A Presidência da República é uma delas.
Nesse sentido a mídia por vezes é bem vira-lata.