O QUE TEM ALÉM DAS CHUVAS NO EMBRÓGLIO DA ENERGIA ELÉTRICA

A constatação de que o atraso nas obras das linhas de transmissão esta relacionado a questões ambientais evidencia a necessidade de modernização “mais intensa” da matriz energética brasileira, baseada, segundo professor Rafael Shayani, do departamento de Engenharia Elétrica da Universidade de Brasília (UnB), na “concepção tradicional” de geração principalmente por meio de hidrelétricas, com o complemento das termelétricas.

“A construção de linhas de transmissão precisa devastar uma parte do terreno por onde passa porque ninguém pode chegar perto, então, pensando na questão ambiental, está correto limitar a entrada de qualquer usina hidrelétrica ou linha de transmissão que possa causar dano ambiental ao Brasil (…) Por outro lado, ninguém quer ficar sem energia, então a saída é investir de forma mais ousada em tecnologias que permitam o uso de fontes alternativas, como a solar fotovoltaica [por meio de placas de material sensível à luz solar] e a eólica [que usa os ventos para geração de energia elétrica]”, acrescentou.

De acordo com o professor Rafael Shayani, a “visão mais moderna” de planejamento energético está relacionada à instalação, por exemplo, de placas e painéis de captação nos telhados das casas. Ele enfatizou que, embora a participação dessas tecnologias seja muito pequena na matriz energética brasileira, o governo tem investido, mesmo que de forma ainda tímida, na diversificação.

Shayani lembrou que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel)  investiu, no ano passado, R$ 400 milhões em pesquisas relacionadas à energia solar fotovoltaica e “deu um importante passo” ao regulamentar, há cerca de um ano, a conexão dessas estruturas de microgeração de energia ao sistema elétrico.

“Com isso, qualquer brasileiro que queria comprar um painel [solar] ou uma microturbina eólica, colocar no seu telhado e ligar à rede elétrica, pode. Durante o dia, enquanto não estiver em casa, o medidor [de energia da concessionária] gira para trás e, em vez de consumir, você empresta energia ao sistema. Esse, por sua vez, passa a utilizar menos água das hidrelétricas para geração”, explicou.

O professor  Rafael Shayani descartou o risco de racionamento de energia elétrica no Brasil, graças à utilização complementar das usinas termelétricas, acionadas quando os reservatórios das hidrelétricas estão baixos. Ele destacou, no entanto, que os gastos para a utilização das termelétricas poderiam ser revertidos, preventivamente, para subsidiar a utilização de fontes renováveis.

Ele acrescentou que levantamento do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, ligado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, indica que o Brasil é rico em um dos silícios mais puros do mundo, que é a matéria-prima utilizada na fabricação dos painéis de captação de energia solar fotovoltaica. “Esse fato é capaz de reduzir os custos de produção e tornar esse sistema viável nacionalmente”, avaliou. Segundo o professor da UnB, somente 0,01% das construções brasileiras utilizam essa tecnologia de geração de energia (EBC).

Na área de geração de energia, os atrasos são liderados por projetos de energia eólica e térmicas de biomassa. No caso das eólicas, 83% da energia prevista têm cronogramas atrasados devido, principalmente, à falta das linhas de transmissão.

Elbia Melo, presidente-executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), diz que a burocracia na concessão de licenças por parte do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) também explica o volume de atrasos.

– Um parque eólico precisa ter uma linha de transmissão para estar interligado no sistema. Mas o governo fazia um leilão só para parques eólicos e outro para linha de transmissão. O tempo de construção das linhas foi mal dimensionado. Por isso, a partir deste ano, só haverá leilões de eólica onde houver linhas de transmissão – disse Elbia, lembrando que a energia eólica vai passar de 1,5% para 2% da matriz energética até o fim do ano.
Nas térmicas a biomassa, do total previsto para 2014, 88,5% contam com problemas para entrar em operação. Em 2013, o número também é relevante: 42,9% estão atrasados. Segundo Zilmar Souza, gerente de Bioeletricidade da Unica, que reúne produtores de álcool, os atrasos estão relacionados à crise financeira, iniciada em 2008, que afetou grande parte dos produtores de cana-de-açúcar. Com isso, diz, houve redução nos investimentos.

– É preciso que o governo crie uma política de longo prazo para o etanol, fazendo leilões específicos de bioeletricidade – disse Sousa.

O professor Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe/UFRJ, destacou que o setor vive um momento difícil, pois as empresas terão queda em suas receitas por causa da Medida Provisória (MP) 579, que tratou da renovação das concessões, o que pode prejudicar o andamento das obras.

De acordo com dados do Plano Mensal de Operação (PMO) do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) deste mês, o risco de ocorrer um racionamento de energia no ano que vem é de 9%, quase o dobro da média histórica do setor, de 5%. Só agentes do mercado têm acesso ao índice, que O GLOBO obteve com exclusividade. O percentual de risco de déficit é calculado mensalmente pelo ONS com base em mais de mil cenários da hidrologia dos rios que ocorreram nos últimos 20 anos, explica o especialista Rafael Kelman, da PSR Consultoria. Com esse índice, os agentes realizam simulações do Sistema Interligado Nacional (SIN). A partir disso, é apontado o risco de corte no fornecimento de energia (racionamento) devido à falta de água nos reservatórios por causa da menor quantidade de chuvas, como ocorre atualmente.

– Não há ninguém tranquilo em relação ao abastecimento de energia em 2014. Por enquanto, a situação hidrológica não é boa, estamos terminando o período de chuvas com cerca de 50% de água nos reservatórios e, contando com os atrasos nas obras, há um risco de déficit de 9% em 2014. Não é um cenário alarmista, é sim, desconfortável – destacou Kelman.

Roberto D”Araújo, diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico (Ilumina), diz que 9% é um número alto. Para ele, o descompasso entre planejamento e operação faz o Brasil seguir em direção a um caminho perigoso.

– Os problemas de 2012 vão se refletir em 2014. O planejamento feito pelo governo é muito otimista – afirmou D”Araújo.

O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, contudo, garantiu que não existe qualquer risco no fornecimento de energia para este ano e o próximo.

– O abastecimento está garantido tanto para este ano como para 2014, sem problemas. Mas é claro que esses atrasos são indesejáveis – disse.

Alessandro da Fonseca Cantarino, superintendente de Fiscalização de Serviços de Geração da Aneel, explicou que já neste ano alguns empreendimentos eólicos, apesar de prontos, não poderão contar com linhas de transmissão, porque não foram concluídas.
Segundo a Aneel, dos 166 projetos de transmissão previstos para este ano, 89 (54%), estão com obras atrasadas. Já para 2014, dos 86 projetos previstos, dez estão com seu cronograma atrasado (12%). A Aneel informou que os atrasos, de três a 18 meses nas obras, impedem a entrada em operação de 600 MW de geração eólica.

– Estamos tentando conseguir uma convergência maior entre geração e transmissão – disse Cantarino, lembrando que licenças ambientais, financiamento do projeto e chegada de equipamentos são acompanhados pelos fiscais da agência.

A falta de linhas pode afetar a transmissão da energia gerada pelas usinas de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira, em Rondônia, para a região Sudeste. Atualmente, a construção dessas duas linhas, de 2,4 mil quilômetros cada está com o status de “atrasado” na Aneel. Segundo uma fonte do governo, há um esforço para que uma das linhas fique pronta até o fim do mês, o prazo previsto. A segunda linha tem previsão para abril de 2014.

O diretor técnico do consórcio IE Madeira, responsável por uma das linhas, Armando Araújo, disse que, dos oito trechos, cinco estão prontos. Os três últimos, disse ele, estão com maiores dificuldades, principalmente por causa das chuvas.

Kelman, da PSR, lembrou que a usina de Santo Antônio já começou a gerar energia, que está sendo consumida pela região Norte. Mas, com o aumento da geração, essa energia terá de ser transportada para o Sudeste.

Apesar dos problemas, o presidente da EPE lembrou que neste ano está previsto um recorde de acréscimo na oferta de energia, de cerca de 8 mil MW. Além disso, afirmou que entrarão em operação cerca de 8 mil quilômetros de linhas.

O presidente do Acende Brasil, instituto de pesquisas do setor elétrico, Cláudio Sales, destacou que o déficit previsto para 2014, se acontecer, poderá ser controlado pelo ONS.