DITADURA: A LUTA ARMADA FOI UM ERRO?

Iza Salles concedeu entrevista à BBC Brasil para, segundo ela, fazer uma viagem difícil, e, Cid Benjamin também falou sobre o mesmo tema para o IG Brasília: a luta armada.

Nos meios de esquerda é quase proibido condenar publicamente a opção que alguns setores fizeram pela luta armada na década de 70.

Mas, muitos na esquerda são de opinião que a luta armada produziu um efeito nefasto e nenhum beneficio, chegam a adjetivar a opção como irresponsabilidade, decisão inconseqüente e infantilidade.

Que essa opção produziu apenas mortes de jovens e contribuiu decisivamente para fortalecer os setores mais duros da ditadura e, com isso, justificar o endurecimento e o prolongamento da sua permanência no poder.

O endurecimento não produziu somente as mortes dos jovens que optaram por pegar em armas, mas também a morte de outros setores da esquerda que não optaram pela luta armada: Wladmir Herzog talvez seja o exemplo mais emblemático.

A necessidade de tentar transformar os guerrilheiros em heróis interdita o debate e torna invisível a crítica ao erro grosseiro da opção pela luta armada, caracterizado na falta de preparo e organização para enfrentar o regime com armas.

O resultado foi um desastre militar e político.

O tema começa a ser tratado publicamente.

Nesse sentido, as entrevistas merecem ser lidas porque expõem esse aspecto da questão: o erro em que se consistiu a opção pela luta armada.

 

BBC

A jornalista Iza Salles, em imagem atual (Arquivo pessoal)

Iza Salles: ‘Durante muito tempo evitei pensar nesse período porque dói muito’

Atualmente com 75 anos, Iza Salles foi integrante, no final dos anos 60, da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), um grupo de guerrilha de extrema-esquerda que tinha como um de seus comandantes o capitão do Exército Carlos Lamarca, que desertara.

Capa de edição do 'Pasquim' (Arquivo pessoal)
Número de o ‘Pasquim’ editado por Iza Salles faz comentário irônico sobre prisões e censura

O grupo realizou assaltos a bancos para financiar suas ações e montou um foco guerrilheiro na região do Vale do Ribeira, no Estado de São Paulo. Também esteve por trás do sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher no Rio de Janeiro, em 1970, que foi “trocado” pela libertação de 70 presos políticos.

A jornalista era do setor de inteligência da VPR. Editora do Segundo Caderno do jornal Diário de Notícias, ela ficava encarregada de passar à guerrilha informações de bastidores sobre o governo militar.

E se envolvia em ações mais arriscadas, como transportar dirigentes importantes da guerrilha do Rio para São Paulo. Entre 1967 e 1970, atendia pelos codinomes de Ana, Maria e Darci.

No início de 1970, o cerco começou a se fechar. Alguns de seus companheiros começavam a faltar a encontros marcados nos “pontos” clandestinos, sinal de que haviam “caído”.

Em uma dessas ocasiões, ela recebeu um recado para “desaparecer” e entrar na clandestinidade. A partir daí, viveu escondida na casa de amigos até que decidiu fugir do país. Marcou uma passagem para a França, em 23 de junho, mesmo dia em que a seleção tricampeã voltaria do México.

A jornalista Iza Salles, em imagem do perído do regime militar (Arquivo pessoal)
Iza Salles foi detida junto com a então guerrilheira Dilma Rousseff

Sua esperança era de que passaria despercebida pelos militares diante da euforia pela chegada dos jogadores. Ledo engano. Assim que saiu do campo de visão de sua família, que compareceu em peso ao Galeão para protegê-la, sentiu seus pés suspensos no ar.

“Dois brutamontes” pegaram-na pelos braços e, jogada no banco de trás de um carro, foi conduzida à sede do DOI-CODI, na rua Barão de Mesquita, zona norte do Rio.

Transferida um dia depois para a Vila Militar, em Deodoro, zona Oeste da cidade, ela saiu da cela pela primeira vez em 18 de julho, dia de seu aniversário, quando ganhou “de presente” um banho de sol.

Poucas semanas depois, a jornalista foi levada para São Paulo, onde respondia a um processo por ter levado um dirigente da VPR ao Estado.

Revendo a luta armada

Em 1977, ela partiu para uma segunda temporada de estudos na França. A anistia parcial, dois anos depois, não foi suficiente para trazê-la de volta, o que aconteceria somente em 1984.

“A luta armada foi a estratégia certa? Você faria tudo de novo?”, pergunto-lhe.

“Com a cabeça que tenho hoje, não. Terminamos derrotados, muitos de nós perderam a vida por nada”, diz ela.

“Até hoje não fizeram a reflexão de que pregávamos uma ditadura de esquerda – que são terríveis. Muitos não queriam ver as denúncias que vinham da União Soviética sobre perseguições e mortes.”

Foi esta reflexão sobre o comunismo que lhe inspirou a escrever o livro Um Cadáver ao Sol, que relata, segundo ela, como a ditadura comunista pode conduzir à “autodestruição”.

“A democracia ainda é o caminho para construir vielas de idealização. Pode não ser perfeito, mas é a melhor forma de governo”.

iG Brasília 

Um dos principais mentores do sequestro de Charles Elbrick afirma, em entrevista ao iG, que existem provas da ingerência do Brasil nos golpes do Chile, do Uruguai e da Bolívia

O jornalista Cid Benjamin, que escreveu o livro sobre os anos de chumbo ‘Gracias a La Vida – Memória de um Militante’, foi um dos principais mentores do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick em 1969, ao lado do ex-deputado federal Fernando Gabeira e do jornalista e ex-ministro Franklin Martins. A ação, considerada bem-sucedida, foi o maior golpe contra o regime militar nos anos 1960. O sequestro rendeu uma grande vitória aos integrantes do MR-8 (uma das organizações de esquerda contra o golpe): conseguiram a libertação de 15 integrantes do grupo, presos pelos militares, mais a leitura de uma carta do movimento em rede nacional.

Nessa entrevista ao iG, Benjamin afirma que, apesar de algumas ações pontuais, a luta armada foi um erro. E acredita que não foram as armas as responsáveis pelo endurecimento do regime. Benjamin diz que provavelmente estaria morto se tivesse sido preso pelos militares seis meses depois de ter sido exilado e confirmou que existem provas da ingerência da ditadura militar brasileira nos golpes do Chile, do Uruguai e da Bolívia.

Divlugação

Ficha de identificação de Cid Benjamin na polícia, em maio de 1970

 

Confira na íntegra a entrevista com Cid Benjamin:

iG: Cid, o senhor foi o principal mentor do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, em 1969. Em algum momento, desde 1969, o senhor se arrependeu disso?

Cid Benjamin: Não é correto dizer que fui o principal mentor. A ideia surgiu de uma conversa que tivemos Franklin Martins e eu, quando vimos o carro do embaixador passar sem qualquer esquema de segurança. Assim, se é que houve mentores, foram dois. Quanto a arrependimento, não se trata disso. Penso que a luta armada foi um erro. O sequestro estava inserido nessa concepção. Minha autocrítica é em relação à luta armada, não ao sequestro em si.

iG: Em depoimento recente, o senhor admitiu que pensou em assassinar Elbrick caso o governo brasileiros não atendesse às exigências dos grupos de luta armada. O senhor chegou, de fato, a refletir sobre as consequências de um possível assassinato ou mesmo planejar a morte de Elbrick? Ou as negociações avançaram de tal forma que não houve tempo de se planejar algo do gênero?

Benjamin: A decisão de justiçar o embaixador caso nossas exigências não fossem atendidas não era minha, mas das duas organizações que fizeram o sequestro: MR-8 e ALN (Aliança Libertadora Nacional). Evidentemente que houve uma reflexão antes de que a decisão fosse tomada. Mas tínhamos a convicção de que nossas condições seriam aceitas pelos militares, dado o grau de subserviência da ditadura aos Estados Unidos.

Divulgação

Cid Benjamin é autor do livro ‘Gracias a la vida – Memórias de um militante’

 

iG: O senhor acredita que a luta armada no Brasil, de certa forma, deu “munição” para o governo endurecer a repressão e subsidiar a manutenção dos militares no poder por tanto tempo?

Benjamin: O endurecimento do regime precedeu a luta armada. E se manteve depois que ela foi derrotada. Assim, não se pode responsabilizá-la por esse endurecimento.

iG: Em alguns momentos, o senhor acredita que a luta armada no Brasil exagerou em alguns atos? E em quais situações?

Benjamin: Pode ter havido um ou outra ação imprópria, mas nada que fosse muito relevante. Prefiro me deter na avaliação da estratégia da luta armada, que se mostrou equivocada.

iG: Em alguns depoimentos, o senhor afirmou que enganou os militares em sessões de tortura. Outros militantes admitem que conseguiram adotar estratégia semelhante. Até que ponto era possível enganar os militares?

Benjamin: A experiência mostrou que não era fácil enganar os torturadores. Mas demonstrou também que era possível.

iG: Quais são as lembranças que o senhor tem dos “porões da ditadura”? O que o senhor ouvia dos militares? Era possível ouvir outras vítimas? O senhor chegou a ver/testemunhar outros atos de tortura?

Benjamin: No DOI-Codi fiquei sempre em celas solitárias. Mas pude ver outros presos sendo levados para a sala de torturas.

iG: Mesmo tendo sequestrado um embaixador americano e sendo integrante do MR-8, o senhor não foi executado pelos militares. O senhor imagina por qual motivo não teve destino semelhante a outros militantes de esquerda, de simplesmente ser executado e depois taxado como desaparecido? O senhor acredita que “teve sorte” em não ter sido executado pelos militares?

Benjamin: A decisão de assassinar os presos mais importantes, depois que eles fossem interrogados sob tortura, foi posterior à minha prisão e ao sequestro no qual fui libertado. Se eu tivesse sido preso seis meses depois não sei se estaria vivo.

iG: Durante o regime o senhor foi exilado. Dá para se mensurar qual é a pior dor? A do exílio ou a de uma sala de tortura?

Benjamin: Sem dúvida, a tortura é pior.

iG: O senhor acredita que o governo brasileiro ajudou a implementar outros regimes ditatoriais em outros países da América Latina?

Benjamin: Há provas de ingerência da ditadura militar brasileira nos golpes militares do Chile, do Uruguai e da Bolívia.

Veja imagens da resistência e da repressão após 1964

 

iG: No período de redemocratização, o senhor chegou a ser vetado de um emprego na Rede Globo. O senhor pode contar como foi isso e qual foi o seu sentimento no período?

Benjamin: Meu telefone estava grampeado e os órgãos de segurança tiveram a informação de que eu seria contratado por uma subsidiária da Globo. Isso me foi dito pela pessoa que estava me contratando e que foi informada do veto. Minha reação foi virar a página e tratar de procurar outro emprego.

iG: Qual é a sua avaliação sobre o trabalho da Comissão Nacional da Verdade? Qual deve ser o principal legado da CNV, no final dos trabalhos?

Benjamin: Minha avaliação é positiva. Penso que, ao final, se terá dado passos importantes na recuperação da memória histórica do país.

iG: E a Lei da Anistia? O senhor acha que ela deve ser revogada?

Benjamin: Vejo duas alternativas: que a Lei da Anistia seja modificada, de forma a não deixar dúvidas de que não beneficia torturadores, assassinos e estupradores de presos políticos ou que sua interpretação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) seja revista, deixando clara essa questão.

iG: O que o senhor achou dos movimentos populares de junho do ano passado? Eles têm alguma semelhança com a luta pela redemocratização no Brasil?

Benjamin: Achei muito positivos. É sempre positivo quando o povo vai para a rua e participa diretamente da política. Há alguma semelhança com as manifestações do passado, embora os contextos sejam diferentes: antes vivíamos numa ditadura; hoje estamos numa democracia.

iG: O Brasil vive um processo de consolidação da democracia. Qual é o principal problema e a principal virtude da democracia brasileira na sua opinião?

Benjamin: O principal problema é a falta de algumas reformas que tornariam o país mais democrático. Por exemplo, no que diz respeito à mídia eletrônica. A principal virtude é a democracia em si. É o fato de haver um clima de liberdade.

iG: E o PT? Qual é a diferença do PT pré-governo e agora no governo?

Benjamin: Penso que o PT tornou-se excessivamente parecido com o PSDB na política e com o PMDB nos métodos.

iG: Por fim, o senhor acredita que nomes como o do ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu, por exemplo, esqueceram da luta armada quando chegaram ao governo?

Benjamin: É natural que pessoas que defenderam a luta armada contra a ditadura não a defendam hoje. O contexto é inteiramente diferente. O estranho seria se José Dirceu continuasse a defender a luta armada. Os problemas dele não são dessa natureza, mas de outra.