O FETICHE PELO PIB É COISA DE ECONOMISTA TAPADO? VALE LER EDUARDO GIANETTI

O renomado economista Eduardo Gianetti vem trazendo para o debate, já de algum tempo, um item que parece totalmente fora do senso comum que marca a análise e a fala dos comentaristas econômicos da grande mídia.

É uma crítica sobre o fetiche que eles nutrem pelo PIB e que tem marcado o debate econômico nos últimos anos.

Vale conhecer as posições de Gianetti.

 

Da Folha

A idolatria do PIB

EDUARDO GIANNETTI

O PIB é uma invenção recente. A ideia de medir a variação do valor monetário dos bens e serviços produzidos a cada ano surgiu no período entreguerras, mas foi só nos anos 50 que os órgãos oficiais passaram a publicar dados de PIB para os diferentes países. Adam Smith, Ricardo, Marx e Mill jamais foram instados a prever o PIB do ano ou trimestre seguintes.

De lá para cá, o culto do PIB como métrica de sucesso ou fracasso das nações virou uma espécie de religião do nosso tempo. O crescimento é o objetivo supremo em nome do qual governos são eleitos ou rejeitados nas urnas e um antropólogo marciano poderia até imaginar que a sigla PIB nomeia a nossa divindade-mor na vida pública enquanto o consumo dá sentido à existência na esfera privada.

Além do passivo ambiental, a idolatria do PIB tem causado graves prejuízos ao bem-estar humano. Dois exemplos recentes ilustram isso.

Uma pesquisa pioneira, publicada no periódico “Proceedings of the National Academy of Sciences” em 2013, comparou populações sujeitas a diferentes níveis de poluição do ar nas regiões norte e sul da China e avaliou o seu impacto de longo prazo (décadas) sobre a saúde (doenças cardiovasculares e câncer de pulmão).

O estudo mostra que uma elevação de 100 microgramas de matéria particulada por metro cúbico de ar corresponde a uma redução de três anos na expectativa média de vida ao nascer. Como a diferença entre o norte e o sul da China é de 185 microgramas por metro cúbico, isso significou uma perda de cinco anos e meio de vida per capita para os habitantes do norte em relação ao sul.

Some-se a isso o fato de que 10% da terra cultivável na China está contaminada por poluentes químicos e metais pesados, e que metade da água suprida nas cidades é imprópria para banho, e se verá que o espetáculo do PIB chinês, como um Otelo sem Iago, oculta um elemento crucial da trama.

No Brasil, o afã de acelerar o crescimento no curto prazo levou o governo a tomar um atalho. Em vez de concentrar esforços na melhoria do transporte coletivo, optou-se por medidas de estímulo à venda de automóveis: isenções tributárias, crédito farto e gasolina subsidiada. Entre 2003 e 2013, a frota de carros particulares passou de 23,6 milhões para 43,4 milhões de veículos.

O resultado do erro pode ser medido em tempo de vida. Um cidadão que gaste três horas por dia em média para ir e vir do seu local de trabalho ou estudo passará cerca de quatro anos e meio da sua vida encalacrado no inferno urbano das nossas metrópoles. O PIB silencia, mas o bem-estar acusa.

Pior que crescer pouco ou crescer mal, só mesmo uma combinação judiciosa das duas coisas. E não é que o Brasil tem conseguido!

EDUARDO GIANNETTI

escreve às sextas-feiras na Folha

 

“O PIB é uma métrica burra e cega”, afirma Eduardo Gianneti

Para economista é preciso encontrar uma nova medida de calcular a riqueza e o desenvolvimento que inclua o cuidado com o meio ambiente e o bem-estar humano

Eduardo Giannetti da Fonseca no Fórum de Empreendedorismo no Forte de Copacabana

Eduardo Giannetti da Fonseca no Fórum de Empreendedorismo no Forte de Copacabana

Rio de Janeiro – Não é só a preocupação com o meio ambiente que norteia as discussões na Rio+20. A criação de uma métrica para substituir o PIB (Produto Interno Bruto), considerado por muitos especialistas como insuficiente para dar conta da complexidade dos desafios do desenvolvimento sustentável, tem se mostrado um dos assuntos mais quentes da Conferência da ONU.

Em abril, o próprio Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, disse que por não incorporar avaliações dos custos ambientais e sociais econômico, o indicador é insuficiente para medir o grau de desenvolvimento sustentável dos países e que os resultados finais da Rio+20 precisam trazer novos parâmetros de medição.

O economista Eduardo Giannetti é um dos que defendem a necessidade de uma nova medida para calcular a riqueza e o desenvolvimento dos países. “O PIB é uma métrica burra e cega”, afirmou durante debate no Forte de Copacabana neste sábado.

“Temos que nos libertar dessa métrica de contabilizar tudo pelo que transita no sistema de preço. A gente tem que encontrar uma métrica mais inteligente, que inclua um indicador da satisfação humana, do bem-estar, mas não construímos isso aí ainda, é um grande desafio”, defendeu.

Do ponto de vista ambiental, a ONU aprovou na semana passada a criação de um PIB verde capaz de mensurar o patrimônio ambiental de um país, suas florestas, água, fontes energéticas entre outros recursos naturais. E o IBGE já estuda a ideia de incorporar a métrica ambiental ao cálculo do PIB econômico. Mas essa proposta não leva em conta indicadores de satisfação humana, como sugere Giannetti.

Para o economista, a mudança do PIB deve vir acompanhada também de uma reforma no sistema de preços, para que as mercadorias passem a incluir em seu preço final os custos ambientais de sua produção.

Sob esse novo sistema de preços, produtos como carne e carro veriam seus preços escalar, uma vez que são originados de atividades com intensas emissões de gases efeito estufa. De acordo com Giannetti, a nova precificação acabaria por gerar mudanças nos hábitos de consumo da sociedade.

“Quando eu pego um avião para cruzar o Atlântico eu provavelmente estou emitindo mais CO2 do que um indiano do meio rural emite ao longo de um ano. No fundo, a contabilização está errada.Esse impacto tem que ser contabilizado e todo mundo vai ter de pagar”, diz.