QUEM PERDE E QUEM GANHA ELEITORALMENTE COM AS REVELAÇÕES DE CORRUPÇÃO NO BRASIL?

3 vencedores e perdedores das últimas revelações de corrupção no Brasil
Por Brian Winter | 12 de Abril de 2017
O “fim do mundo” finalmente chegou, e não era bonito.

“Vencedores”, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (à esquerda) e o prefeito de São Paulo, João Doria.
Depois de meses de antecipação, a Suprema Corte do Brasil divulgou na terça-feira os nomes de dezenas de políticos que serão investigados como parte da sondagem em curso sobre a corrupção na estatal Petrobras. A lista é uma verdadeira revelção de quem é quem na política brasileira, e inclui quase um terço do gabinete do presidente Michel Temer e um terço do Senado. A divulgação, baseada em testemunhos de negociação dos executivos do conglomerado Odebrecht, há muito tempo foi eufemisticamente conhecida como “o fim do mundo” em Brasília por causa de sua amplitude esperada e detalhes específicos e condenatórios – e não decepcionou.
Especialistas legais ainda estavam investigando os documentos na quarta-feira, e cuidadosos em assumir que todos os nomes vão acabar na prisão. Por exemplo, quase metade das acusações envolvem financiamento de campanhas ilegais, que segundo a lei brasileira, tem um estatuto de limitações e é considerado uma infração menos grave do que lavagem de dinheiro ou enxerto. “É praticamente impossível alguém ir para a cadeia por esse tipo de crime”, disse o advogado criminal Celso Vilardi ao jornal O Estado de S. Paulo. Outros serão protegidos pela chamada “disposição especial” que permite que ministros, legisladores e outros sejam julgados pelo Supremo Tribunal – o que na prática significa que seus julgamentos não começam por anos, se começar.
Dito isto, as revelações deixam transparentes vencedores e perdedores, especialmente em termos de precipitação política em uma nação cansada de dois anos de escândalo e recessão. Uma lista parcial segue:
Ganhadores
1. Luiz Inácio Lula da Silva
O presidente do Brasil de 2003 a 2010 aparece no depoimento da Odebrecht, e também enfrenta acusações separadas de corrupção. Mas o volume de outros políticos nomeados na terça-feira, incluindo o antecessor de Lula e rival de longa data Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), fará com que os supostos crimes de Lula pareçam menos extraordinários em comparação. Isso reforça uma visão já prevalecente entre muitos brasileiros, especialmente os pobres, de que “todos os políticos são corruptos, mas Lula é o único que fez alguma coisa por mim”.
Isso é cínico? Certo. Mas pesquisas recentes mostraram que Lula continua a ser o político mais popular do Brasil, e ele venceria todos os outros candidatos presumidos nas eleições presidenciais de 2018, inclusive em cenários de segundo turno. Isto merece várias ressalvas, e a maioria dos eleitores não está prestando atenção ainda, mas Lula ainda pode ser desqualificado de concorrer às presidência se um juiz condená-lo e essa decisão for então confirmada por um tribunal de apelações. Mas o Brasil tem esperado pela prisão supostamente iminente de Lula há mais de um ano, sem sucesso. Parece cada vez mais possível que o barbudo faça, pelo menos, o segundo turno em 2018.
2. João Doria
O novo prefeito de São Paulo é um dos poucos políticos proeminentes cujos nomes não aparecem na lista da Odebrecht. O fato de ele ser grande nas mídias sociais e na política – empresário e ex-apresentador da versão brasileira do The Apprentice – o tem atraído para a classe trabalhadora e estabelecido comparações inevitáveis com o você-sabe-quem. Novas alegações contra outros políticos do partido PSDB, de Doria, como o governador de São Paulo Geraldo Alckmin, fazem com que Doria pareça ser o único nome viável do partido para presidente em 2018, e apesar de suas vulnerabilidades, sem dúvida a melhor esperança para o público anti-Lula. Quanto mais tempo demorar para Alckmin e parte do chefões do PSDB perceberem isso, mais difícil será a batalha com Doria.
3. Aposentados brasileiros e sindicatos
A Momentum já havia anunciado nas últimas semanas o plano do presidente Michel Temer de elevar a idade de aposentadoria para 65 anos, com o qual ele espera reduzir o déficit fiscal do Brasil e, por sua vez, recuperar a confiança dos investidores. Agora, os principais defensores de Temer para impulsionar a reforma através do Congresso – incluindo seu chefe de gabinete, Eliseu Padilha – apareceram no depoimento da Odebrecht. Alguns analistas políticos argumentam que essas alegações foram esperadas há muito tempo e não mudarão muito. Mas isso pode ser uma visão muito interna; A maioria dos brasileiros não lê jornais, e com base na raiva branca que irrompeu no Facebook e no Twitter na terça-feira à noite, a notícia não se tornou real até que eles realmente viram a lista e as alegações específicas. Isso sugere que o Congresso pode ser tentado a concentrar mais sua atenção em sua própria sobrevivência em 2018 do que tirar os chamados “direitos” dos eleitores. Uma reforma aguada das pensões ainda parece provável, mas outras iniciativas – incluindo a reforma trabalhista – podem agora estar fora de questão.
Perdedores
1. Toda a classe política
A mesma geração de políticos dirigiu o Brasil, na maior parte, desde que a ditadura terminou em 1985; Muitos estão agora em seus 70 ou 80. É difícil escapar da percepção de que todos estão agora em seu caminho para fora da porta, com a possível exceção de Lula, pelo acima exposto. A renovação das gerações é uma coisa boa, e pode levar ao governo limpo e moderno que os brasileiros dizem que anseiam. Mas o perigo é que os brasileiros, alimentados não só pela corrupção, mas também pela crescente criminalidade e a pior recessão da história, se voltem inteiramente contra a democracia – e sejam seduzidos pelo “autoritarismo macio” que atualmente varre grande parte do mundo. Uma pesquisa do Latinobarômetro em 2016 sugere que o risco é real: mostrou que apenas 32% dos brasileiros concordam que “a democracia é preferível a qualquer outra forma de governo” – uma queda de 22 pontos em relação ao ano anterior e o segundo nível mais baixo na América Latina, atrás apenas da Guatemala.
2. Michel Temer
Depois que Temer tomou o poder em 2016, após o impeachment de Dilma Rousseff, fez uma aposta arriscada: que nomeando um armário de políticos veteranos, poderia empurrar reformas através do congresso e obter a economia de Brasil que cresce outra vez. Mesmo que muitos ministros estivessem sob uma nuvem de suspeita, e todos sabiam que o caso “Lava Jato” eventualmente desenterraria mais sujeira, Temer apostou que uma rápida recuperação econômica superaria a raiva pública por causa da corrupção. Bem, quase um ano depois, Temer tem um índice de aprovação de apenas 10%, a economia ainda está estagnada, cinco ministros desistiram por causa de alegações de corrupção, e um terço do restante do gabinete foi nomeado na delação da Odebrecht na terça-feira. Os assessores de Temer ainda dizem que ele poderia entrar na história como um sucesso, apontando para as previsões de crescimento econômico de 3 por cento em 2018. Mas a janela está se fechando rapidamente.
3. Os 12 milhões de desempregados do Brasil
O dano à agenda de reforma de Temer é uma tragédia, porque inclui muitas medidas que ajudariam a melhorar o clima de negócios e estimular a criação de emprego. Parece que são os pobres que sempre terminam no fim como perdedores na política no Brasil. Este caso, infelizmente, não será diferente.
Winter é o editor-chefe do Americas Quarterly
Quaisquer opiniões expressas nesta peça não refletem necessariamente as da Americas Quarterly ou de seus editores.
Fonte: http://americasquarterly.org/content/3-winners-and-losers-brazils-latest-corruption-revelations?utm_content=buffere2bf7&utm_medium=social&utm_source=twitter.com&utm_campaign=buffer